sábado, 9 de julho de 2016

Já fui faixa vermelha



Athos Ronaldo Miralha da Cunha

Já faz algum tempo, muito tempo, mas eu fui praticante de Taekwondo e cheguei até a faixa vermelha ponta preta. Treinávamos no subsolo da USE – um prédio inacabado na rua do Acampamento – e tinha como um dos instrutores um coreano chamado Mestre Kim. Kim lá na Coreia deve ser algo como o Silva aqui no Brasil. Naquele tempo ele era o cara. Se autointitulava faixa preta 6º dan. Também aprendi a manejar o nunchaku. Eu mesmo fiz o meu com um cabo de vassoura.
Traduzindo tudo isso aí em cima: eu era metido, mas não era afoito. Nas saídas do DCE ou de um cineminha eu voltava a pé para casa, sem antes comer um Xis no Tareko em frente ao Hospital de Caridade. Mas caminhar pela Fernando Ferrari à noite no final dos anos 70, início dos 80, não era para qualquer um. Era uma rua – na prática ainda não era avenida – mal iluminada e sem calçamento. Voltava sempre desejoso que algum incauto visse me assaltar. Eu sentia uma pena antecipada do assaltante. Naqueles tempos não havia a recomendação de não reagir a assaltos. Mas nunca ocorreu. Aliás, nunca utilizei minhas habilidades nas artes marciais fora da sala de treinamento. Uma vez lá na Mata – terra do Tex – num fim de baile, um gaúcho macho fez uma “gracinha” para uma amiga e quase me tirou do sério. Mas a turma do deixa disso acalmou os ânimos.
Com essa onda de insegurança que assola nossas cidades nos dias de hoje, eu sinto falta daquela autossuficiência que tinha para resolver alguma pendenga.
Hoje, nem pra faixa transparente eu sirvo. Na semana passada fui mostrar meus conhecimentos com o nunchaku e arrumei um galo na testa.
Eu escrevi essa crônica pensando na moça que foi assassinada. Sobre o latrocínio da jovem conterrânea e imaginei que se ela tivesse alguma noção de defesa pessoal, ou não tivesse reagido, talvez tivesse salvado a própria vida. Só que agora não adianta mais conjecturar. Infelizmente, ela estava no lugar errado, na hora errada. E os bandidos, como sempre, soltos.

2 comentários:

Paulo Tarso disse...

GOSTEI MUITO DO QUE VOCÊ ESCREVEU, ME FAZ LEMBRAR MEU TEMPO DE PRATICANTE DE ARTES MARCIAS ONDE TREINAVA NO SUBSOLO DA USE, MAS FAZ MUITO TEMPO A UNICA PESSOA QUE ME LEMBRO ERA "ACHO" QUE ERA DONO DA RÁPIDA GRANDE GALA QUE CONSERTAVA SAPATOS OU CONSERTA AINDA. UM CARA DE 1.90M QUE ERA MEU PARCEIRO DE TREINO. ATÉ O NOME DO PROFESSOR OU MESTRE HJ SE ESTIVER NA ATIVA, NÃO LEMBRO. E O QUE VC ESCREVEU ERA REALMENTE O REFLEXO DO QUE A GENTE SENTIA NA ÉPOCA EM QUE PRATICÁVAMOS O TKD.

PAULO TARSO

Athos Ronaldo Miralha da Cunha disse...

Lembro de um que dava aula. Chamava-se Reginaldo.