domingo, 11 de setembro de 2016

Num átimo



Athos Ronaldo Miralha da Cunha

"Num átimo"; de Walfrido Nascimento. Alguém mira outra pessoa no outro lado da rua. E puxa o gatilho. Pausa. Assim começa o envolvente romance desse autor mineiro. Na página seguinte estamos na Holanda no ano de 1430 onde um tal Julius Van der Cleef acaba de ser condenado a morte. Então perpassamos por vários países e chegamos em Serra Linda – pequena e pacata cidadezinha do interior – onde se desenrola uma trama de traições, adultério e assassinatos. Enquanto voltamos para a idade média a bala encaminha-se “num átimo” para a vítima. Antes de o projétil atingir fatalmente o alvo, o leitor se deliciará com 286 páginas de puro suspense e entretenimento. Se por acaso você tiver um revólver 38 em casa, passa a ser suspeito desse assassinato. Vai encarar? Experimente atravessar a rua. Boa leitura.

O cachorro da Dilma


Athos Ronaldo Miralha da Cunha

O cachorro da Dilma tornou-se a polêmica da nossa impactante política nacional. Na falta de uma notícia mais expressiva para alavancar cliques, comentários e compartilhamentos, algumas mídias usaram o Nego – cão idoso presente do ex-ministro José Dirceu – para alavancar o Ibope do sítio. Dilma virou a crudelíssima assassina de animais.
Numa dessas reportagens a ex-presidente teria autorizado cinco injeções letais no cãozinho. Em outras duas matérias, o cão ficaria com um assessor que permanecerá morando em Brasília e em outra o cachorrinho viria para o sul.
Os portais que noticiaram a morte do cachorro foram justamente as páginas que fizeram e fazem um contraponto ferrenho à Dilma e ao PT. Não nego que há altercações de parte à parte. E a atual política brasileira está repleta de artimanhas. Mas o cachorrinho entrou de gaiato nessa história. E pelo visto, quem ficou num mato sem cachorro foram justamente os coléricos articulistas.
Afinal, Dilma mandou sacrificar o idoso animalzinho?
É importante sabermos a verdade sobre o destino de Nego. Atualmente temos uma sociedade que protege os animais. Mas, também, merece a reflexão de onde nós iremos com esse sensacionalismo, essa intransigência que não tem fim. Qualquer assunto é motivo para ideologizar e já começamos a nos digladiar virtualmente.
A conclusão que cheguei aqui na minha santa ignorância é de que está faltando discutir política, seriamente, nesse país e analisar profundamente o tipo de jornalismo que temos.
Buscar informação na web demanda muito trabalho. Eu sou desconfiado por natureza, qualquer notícia que me causa estupefação, preciso checar numa ronda virtual pelos saites. O possível assassinato do Nego foi uma dessas buscas.  A ocasião faz o ladrão, diz o adágio popular, mas nesse caso a ocasião fez o calhorda.
Se caso o Nego vir morar em Porto Alegre, basta que Dilma não seja “sarcástica” com o animal. Mas nesse episódio do cusco da Dilma, optei pela versão da Folha. Nego ficará com um assessor que permanecerá em Brasília. Me nego a ideologizar o destino de Nego.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Valdivia X Neymar



Athos Ronaldo Miralha da Cunha

Tinha um amigo na juventude que era muito bom jogador de futebol. O cara era disparado o melhor dos nossos craques das peladas. O lado que ele jogava sempre vencia. Foi incentivado a fazer um teste na dupla Gre-Nal. Se a memória não falha acho que foi no Grêmio. Não passou. Não jogou nada na oportunidade que teve.
– A camiseta pesou – explicou na volta.
Nos últimos dois dias tivemos duas situações semelhantes, mas com grandezas diferentes. O pênalti que Neymar bateu valia a medalha de ouro. O pênalti que Valdívia bateu valia o fim da zica no Inter. O desfecho nós sabemos.
Aqui entra a reflexão. O peso de uma camiseta. A encruzilhada de uma decisão. O momento em que nos deparamos par decidir ou executar uma tarefa e a razão e a emoção entram numa disputa ferrenha e nos desconcertam. É a carga na vida dos mortais, o peso de uma decisão. Como encaramos os desafios e as dificuldades?
O Neymar pode ser criticado pelas suas atitudes, modus vivendi e, inclusive, modus operandi [rsrs], mas o que ele faz, ele faz como poucos. E é por isso que arrasta milhões de pessoas e dólares e é admirado.
A carga foi muito pesada para o Valdivia e para meu amigo da juventude. No momento de decisão eles falharam. Na encruzilhada que definiria suas vidas eles vacilaram. Havia um peso nos ombros que eles não suportaram.
Assim é a vida. Repleta de decisões com erros e acertos. Só que a superação é para poucos, aliás, sobre isso as olimpíadas do Rio deixaram inúmeros exemplos. Em determinadas situações uns nasceram para serem protagonistas. Outros apreciadores, mas cientes que as falhas acontecem em qualquer situação. A diferença é como saímos delas.
O meu amigo da juventude não sei por onda anda. O Valdívia deverá dar a volta por cima. O Neymar continuará assombrando dentro – e fora – de campo.
Eu? Na arquibancada até quando o que eu faço seja valorizado pelas multidões e me encha de dólares.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Engenhão – Rio 2016



Athos Ronaldo Miralha da Cunha

No campo do Engenhão jogavam pela fase de grupos nas Olimpíadas Argentina contra Argélia. No Beira-Rio pelo Brasileirão o Inter enfrentava o Fluminense.
Nas arquibancadas uma multidão de camisas amarelas e muitas camisas argentinas. Os Hermanos eram minoria, mas barulhentos. Camisas de clubes um predomínio dos clubes cariocas: Flamengo, Botafogo e algum Fluminense. Na arquibancada superior nós contribuímos com duas camisetas e uma bandeira do Internacional. Presença colorada gaúcha no estádio olímpico Nilton Santos. Logo em seguida entra uma família, todos devidamente vestidos com camisetas do Internacional, o casal e os dois filhos. Fizemos um sinal de positivo. Afinal, oito colorados naquela tarde de 07.08.2016 era muito representativa, praticamente uma invasão.
Num momento de silêncio da torcida um tricolor, umas dez fileiras abaixo, levanta e grita.
– Fluzão dois a zero.
A repercussão do grito foi mínima, apenas um solitário torcedor bem a nossa direita falou algo ininteligível. Pensei em soltar um uuuuuuuuuuuu, mas me contive. Eu não tinha uma Camisa 12 para me defender.
Mas logo em seguida descobri, ao sintonizar numa rádio carioca, que na realidade era “Fluzão um a zero” o gol havia sido anulado e o torcedor estava inconformado. Nós, os colorados, sorrimos. O Internacional resistia!
A partir daquele momento fiquei com os olhos no jogo da Argentina e ouvidos no jogo do Beira-Rio.
No final da partida no Engenhão [um belo e confortável estádio] os castelhanos fizeram festa e foi aquela gritaria estádio afora. O resultado de empate heroico do colorado no Beira-Rio derrubaria o Falcão.
A família de colorados saiu mais cedo, fizeram uma selfie com o campo ao fundo, deram um adeusinho simpático e eu paguei R$ 13,00 por uma latinha de cerveja para comemorar.
Comemorar o que mesmo?



ps
[Os gaúchos são bairristas, mas no tempo que ouvi parte do jogo o narrador falou que a arbitragem, no brasileirão, estava prejudicando os clubes cariocas e citou todos os clubes. E xingou a comissão de arbitragem com palavras que não ouvimos nas nossas rádios locais. Duas constatações: o Sacha havia sido substituído, mas pelo narrador estava em campo ele via Sacha em outro jogador. E Nico Lopes era Nico dias].