segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Lula, o filho do Brasil

twitter.com/athosronaldo

Como nos últimos tempos virei um twitteiro de marca menor. Vivo raciocinando em 140 caracteres. E isso é um problema. Exercitamos o poder da síntese, mas quando desejamos algo mais, poderemos patinar além da vigésima sétima palavra.
Então, ao sair da sala de cinema após ter assistido “Lula, o filho do Brasil” formei a seguinte frase para resumir uma opinião, acerca do longa, no twitter “quem é apaixonado... chora. Quem admira... gosta. Quem odeia... torce o nariz. Gostei.”
Assim sendo, tenho que explicar porque gostei. Sou um admirador de Lula, pela sua trajetória, de onde veio e onde conseguiu chegar. Lula é uma exceção, um predestinado. Não sou um fã incondicional, reconheço os programas de inclusão social, bem como critico o que está ainda a desejar no seu governo. Lula e seu governo não são a perfeição absoluta. Mas isso é outra análise.
Voltando ao filme. É bom porque retrata a saga de uma família em busca de melhores dias. É bom porque tem plasticidade, tem história e não vemos uma ode ao cara... uma idolatria. Devemos lembrar que é baseado em fatos reais, assim, tem um jeitinho para tornar o sindicalista romântico. Lula não é indeciso. É certeiro. Sua conduta é ilibada. Nós gaúchos somos racionais, pouco emotivos e desconfiados. Talvez o filme não provoque sentimentos que nos induza a retribuir nas urnas no próximo pleito. Mas acredito que no nordeste do Brasil haverá mais soluços no cinema e o culto ao herói será mais visível.
Havia lido que a cena do Lula falando – com os devidos “s” – e a galera repetindo para os demais era muito bonita. E é. A outra cena era de que diante da morte de um “patrão” pelos trabalhadores em greve, a reação de Lula não foi bem a retratada. Isso foi o que li antes, mas um dado me chamou atenção. A filha Lurian, que nasceu após a morte da primeira esposa e antes do casamento com Marisa, não é contada. Então, nesse momento, o diretor peca por omissão. Existe uma filha. Existe um homem viúvo em busca de uma vida nova.
Como tenho um amigo que viu o filme e enxergou propaganda explícita para o PT, entrei no cinema com esse sentimento. Não foi o que vi. Acho que a película acaba no momento certo, “minutos” antes da fundação do Partido dos Trabalhadores. Ficou de bom tamanho. Caso contrário nem nós, os racionais e insensíveis, perdoaríamos. Fiquei com a impressão que uma versão de “Lula, o filho do Brasil” será mais fidedigna após a sua morte. E que seja daqui a 40 anos ou mais.
Acho que consegui dizer que gostei do filme. Ou não?

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

As cartas não estão na mesa

twitter.com/athosronaldo

O jornal Financial Times de Londres previu que a Dilma vencerá as eleições presidenciais e o Brasil ganhará a Copa da África do Sul.
A seleção Canarinho sempre será favorita em qualquer competição. E se Nilmar, Pato e Vitor forem titulares, também coloco minhas fichas na turma de Dunga.
No entanto, a seleção presidencial, opa, eleição presidencial, o furo é um pouco mais embaixo. Ainda estamos diante de uma incógnita. Temos um quadro obscuro em que os candidatos não estão expostos para o debate e programa de governo. Os dois principais candidatos passeiam livremente pela mídia, entre sorrisos e farpas. Dilma está colada em Lula e Serra negando a candidatura. Para uma análise, minimamente consistente, precisamos de dados mais concretos. Em 2002 Lula representava a mudança, um novo horizonte a esperança. Qual o mote dessa campanha? Qual o grande tema? Quais os anseios do povo para 2010? Os medos ideológicos de outrora foram superados? Haverá um detalhe que modificará o resultado do jogo aos 45 minutos do segundo tempo?
Os percentuais de Serra e Dilma somados chegam a 60 ou 70%, haveria espaço para uma terceira via? Qual o fôlego de Marina e Ciro? Para onde vai o voto da esquerda tradicional e da direita reacionária? Podemos dizer que a eleição está e será polarizada. Um candidato escolado em eleições e uma estreante, mas ambos calejados na política. José Serra nós sabemos como se comporta diante do vídeo e de um debate. A incógnita é justamente a Dilma Rousseff. Ela definirá a eleição. Contra ou a favor. Um escorregão ou desempenho pífio nos debates pode ser fatal. Uma frase politicamente incorreta pode carimbar o passaporte para a derrota. Dilma não tem histórico no quesito eleitoral, é totalmente desconhecida e imprevisível. Por enquanto navega nas tranquilas águas da praia de Lula. Existem casos recentes de transferência de votos, mas o carisma é intransferível. E Dilma é o oposto de Lula.
Com essas inúmeras variáveis as previsões tornam-se pouco palpáveis. Assim, qualquer prognóstico vira chute ou paixão. Então, nesse início de ano, as cartas ainda não estão na mesa. Os times não estão escalados. Muita água vai rolar pelas ruas de nossas cidades antes de os contendores desse pleito estiverem a postos.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Apophis, o asteroide

twitter.com/athosronaldo
O filme 2012 retrata uma catástrofe planetária que teria sido prevista pelos Maias. Nós sabemos que a Terra não acabará em dezembro de 2012 – nós temos que organizar a Copa do Mundo de futebol e os jogos olímpicos na Cidade Maravilhosa logo adiante –, mas a humanidade tem uma necessidade muito grande de convier com a hecatombe, com as tragédias. E os cineastas americanos transformam esses devaneios em uma máquina de fabricar dólares. Assim, milhares de terráqueos e alguns lunáticos foram ao cinema assistir o fim da Terra repleto de efeitos especiais, mortes e destruição.
No entanto, um dado que passou meio despercebido, em virtude das comemorações da virada do ano, a notícia de que um asteroide de nome Apophis está em rota de colisão com a Terra. A data prevista para o choque é 2036. Segundo os noticiários, cientistas russos assumiram o compromisso de salvar a Terra dessa catástrofe. A NASA acha pouco provável e não vê motivo para pânico. Quatro possibilidades em um milhão. Lembremos que a mega-sena da virada cuja possibilidade é de uma para 52 milhões teve dois ganhadores. Tudo bem que as chances são pequenas, mas 26 anos passam num piscar de olhos. Não vamos deixar para resolver essa encrenca em maio de 2035.
Há 60 anos houve um desastre no Maracanã e na semana passada o carrasco Alcides Ghiggia colocou os pés por lá. E parece que foi ontem.
Já que os russos estão com essa incumbência, espero que o diretor da agência espacial russa Anatoly Perminov não permita essa colisão. Penso que o Brasil não deva entrar nesse projeto. O nosso negociador pode confundir colisão com coalizão e sugerir um acordo com o Apophis. Quem faz com Judas faz com Apophis.
O choque com a Terra ocorrerá em 13 de abril de 2036. Na minha santa ignorância eu acho que deveríamos construir uma enorme raquete e deixar que a Maria Sharapova maneje a geringonça. Mas Arquimedes afirmou que precisava de uma alavanca para levantar o mundo. Então, temos tempo de sobra para construir essa alavanca e tirar a Terra da rota do bichano ou o Anatoly passa a bola para Hollywood fazer um mega-projeto e enviar o Tom Hanks ou o filho ou o neto em uma missão especial e espacial para explodir o Apophis.
2036 é logo ali. E eu já estou roendo as unhas. Mas com a certeza de que professor Aguinaldo Físico Severino desconstruirá todas as possibilidades dessa tragédia cósmica, colocando por terra – sem trocadilhos – alguma remota possibilidade. Que venga el toro!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Um par de meias

twitter.com/athosronaldo


As festividades de fim de ano aproximam as pessoas. Nos tornamos mais solidários, ofertamos Cidras aos trabalhadores que recolhem o lixo, ranchos e agasalhos às instituições de caridade. Desejamos felicidades, saúde, paz e dinheiro no bolso, que, convenhamos, ajuda bastante. Um ano que inicia sempre nos enche de otimismo. Renovamos nossas esperanças de que um mundo mais humano e igualitário é possível. Esquecemos as nossas agruras e nos abraçamos saudando o ano que entra e, se possível, saldando o ano que finda. Mas, certamente, sondando o parente que se achega só com a vontade. Pipocamos fogos nos céus e estouramos champanhas. Tudo para celebrar a alegria.
Para realizar nossos sonhos não abrimos mão de superstições e simpatias.
No primeiro minuto do ano umas colheradas de lentilhas são fundamentais para termos sorte. Vestir branco também significa harmonia e paz. Dizem que se comermos 12 uvas, uma para cada mês do ano, ajuda na prosperidade e dinheiro. Não há necessidade de comer uma uva para cada dia do ano, a sua fortuna não aumentará e você ainda poderá ter uma desagradável dor de estômago e sua entrada de ano novo ser uma correria. Embora os porcos vivam nos chiqueiros eles fuçam para frente, então: porco assado na virada. Porco assado light para os preocupados com as calorias. E nada de porco para quem está na berlinda da balança. Logicamente que na mesa não poderá faltar o panetone marca Big.
Quando jovem e estudante, gostava de ir ao cinema acompanhado e sempre convidava uma colega. Diante da bilheteria do Glorinha eu solicitava “Um par de meias, por gentileza”. É claro, recebia um sorriso da atendente. Hoje, peço um par de inteiras, mas não tem a mesma graça.
Atualmente, a minha única superstição de fim de ano, e que me faz lembrar as meias do saudoso Cine Glorinha, é usar um par de meias no pé direito. Assim, eu garanto que não entrarei no ano novo com o pé frio.
Enfim, não sei o que implica dar três pulinhos num pé só. Mas três pulinhos com o pé direito com um par de meias de lã deve ter algum significado.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Livro do Falcão

twitter.com/athosronaldo
Quem, colorado e com mais de 40 anos, não comemorou a conquista histórica do Internacional de 1979? O Internacional foi tri-campeão invicto do brasileirão daquele ano.
O Inter foi o time da década de 70. Naquela oportunidade fomos para a praça Saldanha Marinho comemorar o título. A presidente Vargas ainda não tinha sido descoberta para as comemorações do futebol. Como não tinha uma bandeira, me enrolei em uma colcha vermelha. E fomos, em bando, para a praça. A vitória inédita valia qualquer esforço.
Passados 30 anos Falcão, capitão e ídolo de uma geração, rememora o feito em um livro com depoimentos dos atletas daquela jornada.
“O time que nunca perdeu” li num fôlego só. É emotivo, sentimental e trata de uma época em que a camiseta ainda era valorizada, pesava mais que os euros de hoje em dia.
Talvez não veremos algo semelhante – um clube ganhar o campeonato de forma invicta – mas de qualquer forma reler essas memórias do Falcão, nos remete às conquistas de uma era marcada na mente dos que eram adolescentes e que sonhavam, também, como qualquer adolescente gaucho dos anos 70, em ser um campeão pelo Inter. Internacional era sinônimo de vitórias. Era sinônimo de bravura e esplendor.
Falcão trata com muita sensibilidade esse momento histórico e foi muito feliz ao narrar de forma mais ampla e democrática cada um dos depoimentos dos companheiros de equipe.
Um bom livro para se receber de presente nesse fim de ano cheio de retrospectivas desanimadoras e politicamente incorretas.

Pra não dizer que não falei das merdas

twitter.com/athosronaldo

O presidente falou merda
Num palanque no nordeste
Eita! Um cabra da peste
Língua que a gente herda
Com a minha ideia lerda
Eu vejo essa porcaria
Pois no meu dia a dia
Afeta a mente insana
Na corredeira aragana
É um fato que não sabia

Na merda todos estamos
Um faz de conta que não
Mas é na merda que o povão
Salta de galho em ramos
E assim sempre voltamos
No berço da pátria querida
Saudando essa triste vida
Sonhando que seja nobre
No bolso papéis e cobre
E uma evacuada sofrida

A merda transborda penico
É potente e volumosa
Por certo será prazerosa
No fim de baile do Chico
Naquele baita mexerico
De peidos e bostas sem fim
E eu até vejo por mim
Quem do aroma não escapa?
Sinto, assim, de inhapa
O cheiro do graxaim

Acabou o estoque de rima
E troco a merda por bosta
Tem até alguém que gosta
Seja grosso ou gente fina
Nesse olhar de relancina
Daquela cor amarela
Como gaiato na cancela
Na estância do Pau fincado
Na bosta de um colorado
Um chimango pisou nela

Essa antiga dualidade
Na vasta e larga pampa
Um índio que usa guampa
Mas luta por liberdade
Aquela velha hospitalidade
Na amizade mais profunda
Mas a payada imunda
De um gaúcho guapo e taura
Que se transforma em maula
Pois na bosta ele se afunda

Com merda volto ao tema
Para encerrar a payada
Nem chimanga, colorada
Mas vale esse dilema
Que essa vontade extrema
Na vida dos Silva Zé
Que deixou filhos e “muié”
E um antigo marca-touro
Então percebeu num estouro
Que merda todo mundo é.


Athos Ronaldo Miralha da Cunha

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Teatrinho


O provão foi instituído no vestibular de 1978. Eram 80 questões de caracter classificatório abrangendo todo o conteúdo. Esse provão aconteceu, apenas, naquele ano. Lembro bem porque foi o meu primeiro vestibular e um excelente desempenho em matemática. Meu pai disse que eu “lavei a égua” e meu avô, que eu estava na “ponta dos cascos”. Das 10 questões do provão e as 25 do vestibular, apenas uma ficou sem resposta, ou melhor, chutei na errada. Na disciplina de matemática eu estava afiado.
No entanto, em física e química a égua ficou suja e não era bem na ponta dos cascos que eu estava. E por esse motivo, no vestibular de 78, eu entrei em segunda opção no Curso de Ciências.
Na verdade, aqui começa a crônica. A primeira aula na UFSM lá no Centro de Educação.
O curso de Ciências oferecia 160 vagas. Como havia uma sobra, elas eram preenchidas com os vestibulandos que optavam pela segunda opção. Muitos que não logravam aprovação em Engenharia, Medicina, Odontologia, Fisioterapia e outros, também concorridos, cursavam um ano de Ciências para tentar novo vestibular.
No curso de Ciências havia uma disciplina, no primeiro semestre, que se chamava “Psicologia da Educação”. No momento não lembro quem era a mestre, apenas alguns detalhes da sua estampa e estilo, e também não lembro dos colegas.
Estávamos na sala de aula numa manhã de sol fraco e após fortes emoções pelos trotes que fomos submetidos. De repente, entrou no recinto uma baixinha espaventada, com nariz empinado e peito caído, disse que era a professora da disciplina e solicitou que cada um se apresentasse contando um pouco de sua vida. Após, sugeriu uma bibliografia e concluiu falando alguma coisa sobre a importância da psicologia na educação e elogiou o governo do presidente Geisel. Falou mal do prefeito e bem do reitor. O que eu não entendi bem o porquê.
Anotei atentamente os livros sugeridos, mas horas depois jogaria num lixo no corredor do Centro. Para esquecê-los em definitivo.
Então, a professora, do peito empinado e do nariz caído, dividiu a turma em três grupos.
Chegou diante do nosso grupo e apontou para mim.
– Tu vais ser o pai!
– Eu?
Apontou para os demais membros do grupo e afirmou.
– Tu vais ser a mãe, vocês dois os filhos e tu, que é gostosa, a empregada doméstica!
Achei aquilo tudo muito estranho. Termos deselegantes para com a caloura.
Passou para os demais grupos e fez a mesma distribuição de tarefas. Colocando nos outros grupos, por falta de gostosas, um mordomo e um jardineiro.
No final, falou para todos.
– Na próxima aula vocês deverão representar o cotidiano de uma família. Cada grupo terá 20 minutos para sua apresentação, depois nós faremos um debate acerca das situações familiares encenadas.
Teatrinho! Pensei cá com os meus botões paternos.
Para encurtar o relato.
Deixei minha família órfã de pai. Ora, um tímido missioneiro recém-chegado na Boca do Monte não viria para a Universidade Federal de Santa Maria para fazer teatrinho.
O que iriam pensar meus pais maragatos e meus vizinhos chimangos?
Não assisti a aula seguinte e não lembro mais do nome da professora e da fisionomia dos colegas, essas imagens se perderam nos anos e estão difusas. Também não sei como foi o desempenho da família sem a figura paterna. E, para falar a verdade, não fiquei sabendo para que serve a tal Psicologia da Educação. Hoje, acredito ser de muita importância, mas tenho que me dar um desconto, eu tinha apenas 17 anos em 1978. Eu era um “Alexandre Pato” sem talento para o futebol e menos, ainda, para a encenação.
No ano seguinte, sem teatro e com muitas integrais e derivadas eu ingressei na faculdade embasada nas ciências exatas. O curso tão sonhado e desejado para o qual havia me preparado. Afinal eu era fera em matemática.
Abandonei o curso de Ciências. Não encontrei mais a professora nem os colegas. Uma vez, ou outra, cruzei com algum remanescente da minha ex-família pela biblioteca ou pelo RU. A professora deve ter feito uma operação no nariz ou nos seios, sei lá. A Medicina tem avançado muito.
Alguns meses após a minha desistência eu encontrei um colega que disse que o teatrinho fazia parte do trote e que a professora, do nariz empinado e do peito caído, na verdade, era uma veterana do curso.
Mas aí era tarde demais. O mundo havia perdido um cientista.