quinta-feira, 19 de março de 2020

O zapzap das flores


Não sei porque cargas d´água alguém me adicionou em um grupo do Zapzap para falar de flores. Fiquei imaginando o que eu falaria de flores... veio em minha mente o premiado curta “Ilha das flores”, o sabonete “Alma de flores” e o Flores da Cunha. E parei por aí.
Não saí imediatamente para não ser mal-educado. E eu poderia aprender algo sobre flores. Algum manejo para deixar meu jardim mais florido. Sei lá, eu poderia aprender a cultivar rosas.
Na manhã do dia seguinte acordei com uma avalanche de mensagens no celular.
Bom-dia! Bom-dia! Bom-dia!
Durante todo o dia ninguém falou de flores. Uma guria postou a foto de girassóis com abelhas. Linda! Outra com borboletas e flores desfocadas ao fundo. Bela foto. Dona Margarida postou a foto de uma samambaia que, aliás, não tem flores. Mas relativizei, afinal era a Dona Margarida... uma flor.
Lá pelas 10 horas da noite começou outra saraivada de mensagens.
Boa noite! Boa noite! Boa noite!
Então eu fui no YouTube e copiei o linque da música “Pra não dizer que não falei das flores” e colei no grupo. Pensei que não poderia ser uma boa ideia e, realmente, não foi. Ato contínuo, seguiram os comentários exacerbados. Estávamos em período eleitoral e os ânimos acirrados.
#Bolsonaro17!
Vai pra Cuba!
Pão com mortadela!
13 de cabo a rabo – e carinhas sorridentes.
Cirão da massa 12.
Fiquei na moita e não comentei nada. Seriam estas as flores do mal? Nestas horas o silêncio é a melhor solução. Na manhã seguinte a mesma avalanche do dia anterior. Alguns incrementavam as postagens com emojis floridos.
Bom-dia! Bom-dia! Bom-dia!
E durante todo o dia ninguém falou das flores. Apenas o comentário e foto sobre Ora-pro-nobis dizendo que tinha muita proteína e era excelente alimento. Confesso que não sabia. Tinha certeza que aprenderia alguma coisa.
A noite a Dona Margarida postou a foto de uma erva-daninha. E um ramo de Macela colhida na páscoa passada. E a mesma ladainha.
Boa noite! Boa noite! Boa noite!
Então postei a foto de uma bandeja com laranjas, goiabas, bananas, bergamotas e maçãs. E a foto da ex-primeira-dama, Marcela, sorridente.
De vereda alguém retrucou.
Este grupo é para falar das flores! Juntando ao texto emojis raivosos.
Fui até a cozinha peguei um copo e enchi de leite desnatado, bati a foto e postei.
– Um copo de leite, pessoal! – comentei e em enchi a postagem com kkkkkk.
– Tu tá de brincadeira, né – alguém comentou.
Postei uma carinha risonha e fui dormir. Na manhã seguinte a mesma avalanche.
Bom-dia! Bom-dia! Bom-dia!
E ninguém falou de flores. Só que aconteceu o seguinte. Por volta das 13:30 horas, logo após o horário político, Dona Margarida teve a brilhante ideia de dar “boa tarde” ao grupo, toda faceira. E foi outra avalanche.
Boa tarde! Boa tarde! Boa tarde!
Athos saiu do grupo.

quinta-feira, 12 de março de 2020

A prostituta e os pés de meu pai


A história é muito antiga. Sobre um relacionamento que talvez tenha acontecido lá na década de 40 do século passado. O relato interessante, pois não é todo dia que uma prostituta comenta sobre os bonitos pés do cliente. No caso, meu pai.
Importante salientar que as minhas tias também tinham a mesma opinião da prostituta – os pés do velho eram bonitos –, mas nos encontros familiares nada se comentava. Isso, eu soube muito tempo depois.
Consta, também, que a mulherada do povoado tinha interesse e curiosidade sobre se realmente os pés do meu pai eram lindos. Elas enchiam as arquibancadas nos jogos de futebol de domingo. O velho jogava de atacante do primeiro quadro e de goleiro no segundo. Todas interessadas nos belos pés do craque. Tudo isso por conta do singelo e despretensioso comentário de uma prostituta. O desapontamento era geral: no campo de jogo nunca ninguém viu os pés do velho sem chuteiras e meias.
A bem da verdade eu não sei como surgiu essa história. Como saber, depois de longas décadas, se uma prostituta havia comentado sobre os pés de um cliente? Somente se o cliente contar para alguém e essa pessoa repassar para os demais amigos, familiares e fofoqueiros em geral.  Dúvida que jamais será esclarecida.
Se, realmente, uma prostituta elogiou os pés de meu pai, deve ter sido no aconchego de uma tarde no catre e ele comentou com amigos, em tom de brincadeira. E o assunto chegou nas rodas de pingas nos botecos e nas rodas de mate-doce das tias – neste caso, tias mesmo –, irmãs do meu pai. Devo confessar que nunca observei os pés do velho com a intenção de avaliar sua belezura.
Se os pés de meu pai era tudo aquilo que contam, por uma questão de DNA ou hereditariedade, os meus também devem ser bonitos. Mas... essa história promete...
Vou dar um espaço para separar o relato em duas partes.

Bom, até agora essa crônica é aparentemente ficcional, fiquem tranquilos parentes. Tudo fruto de pensamentos borbulhantes de quem não tem o que fazer. E precisa preencher as horas.
A bem da verdade, bonitos são os meus pés. Eles foram elogiados e admirados uma única vez há muito tempo. Prostituta? Segredo de estado.
Há quarenta anos, num veraneio no Passo do Angico ali para as bandas de São Pedro do Sul, uma guria achou os meus pés bonitos. Lindos... lindos... lindos de morrer. Fazer o quê, né? Gosto é gosto e as opiniões devem ser respeitadas. E, naquela época, eu tinha um corpo atlético e era faixa azul em Taekwondo. A guria era uma loiraça esbelta de abrir caminhos nas águas do rio Toropi. 
Enfim, eu não poderia escrever uma crônica “A guria e os meus pés bonitos” ficaria sonsa, sem a mínima graça. E eu não preciso ficar me autoelogiando num texto.
Então, se os meus pés são bonitos os do meu pai também eram. Inseri o velho na história. E lá pelos anos 30 ou 40 do século passado não seria uma namoradinha de portão que iria atentar nos pés do pretendente.  Assim, coloquei o velho na zona do meretrício e uma personagem prostituta para apimentar a história da família. E aí surgiu esse belo título “A prostituta e os pés de meu pai”. A crônica ficou mais tensa, mais densa e bem-humorada. E os meus pés, depois de tantos anos, novamente bonitos.

quinta-feira, 5 de março de 2020

E se a vaca voltar do brejo


A vaca foi para o brejo. Essa é a premissa para ilustrar uma desilusão. Uma perda. Ou, simplesmente, expressar espanto diante de um infortúnio. Mas dependendo do tempo do verbo pode ser uma conclusão: a vaca poderá ir para o brejo. Uma previsão se as coisas não mudarem.
A política é um dos setores que mais contribui para o índice populacional do brejo. O lodaçal da política é muito concorrido. Haja brejo!
A trilha do brejo das vacas da política é de mão única. E muito frequentada. Em tempos de mais balbúrdia política e desavenças midiática é, praticamente, uma romaria ao brejo.
No atual momento do Brasil são tantas a situações que o porteiro do brejo deve estar distribuído senhas para as vacas. E a cancela é com controle remoto. Logo teremos que construir brejos sustentáveis para abrigar tamanha quantidade de habitantes.
Uma questão a ser verificada é se a vaca voltar do brejo. Alguém tem notícia do retorno da vaca?
O brejo aprisiona, e talvez seja difícil livrar-se dessas amarras. Desta clausura. Mas é um direito da vaca, no brejo, mugir. O brejo seria pedagógico? O brejo recicla? A vaca que voltar do brejo, volta diferente? Se voltar, esperamos que sim.
Eu não sei se tem partidor para dar a largada do brejo, mas em um cenário eleitoral os habitantes do brejo gargalham em galhos vergados.
Se ao final disso a vaca fixar domicílio no brejo restam poucas opções. Nós teremos poucas soluções e uma delas é tirarmos o cavalinho da chuva.
A outra seria Pasargada.
Um apartamentozinho num bairro de classe média em Pasargada seria interessante. Então, se alguém conhecer um corretor de imóveis em Pasargada, avisa aí. Lá eu não sou amigo do rei, mas tenho amigos que são. E isso é importante nas relações atuais. Para as minhas necessidades serve um quarto e sala. E se o vizinho for o Manuel Bandeira, melhor.
Não tenho conhecimento se existe brejo em Pasargada. Mas se existir seria o fim da picada.