terça-feira, 20 de abril de 2010

Matungo torto e os cavalos do comissário

Votar sempre é bom. A democracia evolui a cada eleição e o eleitor aprimora o voto. Diante da urna: a hora da verdade... ou do troco.
Então, vamos votar massiçamente na eleição da Funcef que ocorrerá entre os dias 24 de abril a 06 de maio. A participação fará a diferença. Vamos eleger nossos representantes na Direção da Funcef e membros do conselho deliberativo e fiscal.
Essa eleição se reveste de suma importância, pois também conta com o componente pós saldamento. É uma oportunidade única de reabrirmos esse debate que sempre foi unilateral. Poucos sindicatos no Brasil, para não dizer três ou quatro, fizeram o debate do saldamento ouvindo os dois lados. Fazendo ponto e contraponto. Os demais foram obedientes ao comissariado.
Numa eleição, como essa, exerceremos nossa participação política. É importante sabermos o rumo que desejamos para a nossa Funcef. E a construção do voto se dará pela atenta leitura dos documentos das chapas com as propostas, programas e feitos. Todas como legítimas representantes dos participantes da Funcef. E por isso temos que avaliar bem o nosso voto. Quem são, realmente, os nossos representantes?
Em outros tempos votaríamos de olhos fechados nos tais representantes legítimos da categoria. A luta era ideológica e o horizonte definido. Nosso envolvimento era unicamente político. Éramos ávidos por mudanças numa visão sonhadora de mundo. Éramos utópicos e felizes na construção desse horizonte. Até esquecíamos que quando aposentados o salário não teria ideologia. Salário não é de esquerda ou de direita... tem que nos sustentar minimamente com dignidade.
O novo nessa história toda foi o Novo Plano, com a adesão de uma considerável parcela do movimento sindical na sua campanha. Assim, faz parte dessa eleição um caráter pragmático. Como acreditar – por exemplo, nós que estamos no Reg/Replan – em colegas que foram amplamente favoráveis a migração e sequer fizeram debates em suas bases ouvindo os dois lados? Eles estarão na defesa dos interesses dos não-saldados? Como acreditar em colegas que foram subservientes ao assédio moral pró-migração exercido Brasil afora pela Caixa e Funcef? Teriam esses candidatos a representantes dos beneficiários afinco na intervenção em favor de alguma reivindicação dos não-saldados? Aqui eu aciono o meu “desconfiômetro”. Tenho que confessar. Eu sou desconfiado – mais desconfiado que matungo torto – então, nesse pleito tenho que ser político, pois temos que votar no conjunto das propostas que contemplem a maneira de como vejo o mundo, mas, nesse caso especifico, também teremos que ser pragmáticos.
Estou no Reg/Replan e vejo que esses participantes têm o direito de ter uma representação junto à direção da Funcef. Um candidato que está no Reg/Replan será, sim, um legítimo representante dessa considerável parcela de associados. Afinal, é comum no sindicalismo a tal proporcionalidade.
Mas o motivo desse texto não é um chamamento ao voto em candidatos do Reg/Replan. É, também, uma avaliação política do nosso movimento.
Nas últimas negociações salariais ficamos submetidos, ou ao reboque, da Articulação Bancária. E muitas vezes fomos para as assembléias denunciar a subserviência ao governo e a direção da Caixa no que tange ao acordo coletivo. É com tristeza que percebemos nas reuniões verdadeiros cavalos do comissário na mesa de negociação. Temos ciência que sempre nossas negociações foram rebaixadas. Com índices abaixo do que esperávamos. Muito aquém do tamanho da nossa greve. Quantas vezes aqui no RS nós aprovamos, em Congresso Estadual, um índice e no encontro nacional o percentual aprovado era abaixo. Inclusive com os votos dos colegas da Artban gaúcha. E essa incoerência era motivo de muita discussão e revolta. Por questões de divergências políticas, estratégias de campanha e atrelamento ao governo eu não me sinto representado por esse campo do movimento sindical. Assim, o voto na chapa 1 – Movimento pela Funcef – para mim, está descartado. Reafirmo: são divergências políticas com a orientação e prática sindical da Articulação bancária.
Já faz tempo que rebaixamos nosso horizonte utópico, mas não devemos rebaixar nosso trópico no horizonte e nossos tópicos nos acordos. Há alguns anos a esperança venceu o medo. Hoje, quem venceu quem? Ou será que somos nós os derrotados por não termos mais a picardia da audácia. Até quando vamos dizer sim, quando eu quero dizer não? Eu quero reinventar aquela velha opinião formada sobre tudo. Eu não posso ficar mudo diante do azul da imensidão. Infelizmente eu não me iludo com o vermelho da paixão, com o verde da esperança mesmo sabendo que a liberdade é azul. Nós precisamos uma planura incandescente de verdades e transparência. Nesse momento repudio o silêncio e a pena que se verga. A caneta escravizada. O teclado omisso. Eu quero uma canção baguala e um potro sem dono cortando o ventre da pampa gaucha. Me causa desconforto o líquido e certo, eu quero um sólido coberto nem que para isso tudo se desmanche no ar. Eu quero ficar ansioso porque sei que o sonho está ao alcance de minha mão. Eu não quero a indecisão porque essa indecisão protela a vitória.
Abraços e bom voto a todos.

Santa Maria, abril de 2010

A propósito, voto na chapa 3.

5 comentários:

maiquel disse...

"Nas últimas negociações salariais ficamos submetidos, ou ao reboque, da Articulação Bancária"
Sensacional!
E até abriu o voto. Sinal de coragem que falta em muito pelego pelo Brasil a fora.
Abrçs

Geraldo disse...

Colegas empregados da CAIXA,

É fato que as entidades representativas são eminentementes políticas, ora, foi assim que se fez o sindicalismo no Brasil. Isso é um fato histórico: começou com os anarcosindicalistas imigrantes italianos na Velha República. Então houve a aproximação dos partidos políticos aos sindicatos. PCdoB e dissidência, sindicalismo de resultados (PT), etc.

Hoje, a maioria dos sindicatos são aparelhos do Estado.
Isto é perceptível.
"A CUT sempre foi aparelhista" (..).
Estes "aparelhos" se fortalecem e são fortalecidos nos sufrágios (até para síndico).
Como dizia meu pai: "em eleição o único pecado é perder".
Pragmatismo, máquina eleitoral: é o que mais importa.
Isso acontece detrimento da democracia e do dono do voto: o cidadão.

Sei, colegas, que é mais fácil não entrar em conflito com ninguém.
Sei também que esse é o problema por nossa democracia ser tão frágil: a omissão.

Já estive dentro das entidades e sei da existência dos grupos políticos que alijam estas entidades nas suas fuções precípuas e de como funcionam as coisas (por isso não continuei na chapa da situação na eleição de 2007 da APCEF/MG). Há uma linha que orienta as ações. Não há autonomia. Pelo contrário, há poder e disciplina, cotas, acordos, favorecimentos.

As explicações de quem representa um grupo que se antecipa aos meus anseios, são pura retórica, canto de sereia, discurso fácil que agrada aos ouvidos. São palavras mortas.
Outrossim, "tutela" não é democracia.

Luto pelo que acredito e de modo franco.
Não gosto de conflitos, mas viver já os pressupõem.
Não quero aposentar vendo meus direitos ultrajados.
Ficar calado diante do proselitismo que me prejudica e me ofende seria eu exigir de mim mais do que eu conseguiria assimilar (engolir).
Se o tom é egocentrismo, individualismo e ganância então estou desafinado.
Tenho valores que não flexibilizo.

Não vou votar na CHAPA 1 porque não considero que ela representa os meus legítimos anseios e por estar convicto que ela está atrelada a interesses que não são os apregoados por ocasião das campanhas eleitorais.

Vou votar na Chapa 3 porque conheço a honradez de Fernando Batista.

Geraldo Fonseca
MINAS

Athos Ronaldo Miralha da Cunha disse...

Meus caros.
Alguns colegas solicitaram de onde era os versos que coloquei no início do texto.
No linque abaixo a música De mi esperanza, cantada por Jorge Cafrune.
Abraços.
Athos

http://www.youtube.com/watch?v=eP1kaJexkgI&feature=related

amanda disse...

Caro Athos, como continuo me considerando uma pessoa coerente com meu passado e preocupada com o futuro de minha categoria, da empresa pública que deve atender às necessidades do povo,do meu país e, por que não, do mundo, devo reafirmar que não aceito, de modo nenhum, a pecha de "pelego" ou "traidora", nem aceito, tampouco, o maniqueísmo de "quem defendeu o saldamento é do mal" e "quem ficou no REG/REPLAN não saldado" é do bem. Não vou me estender nesse assunto, pois estive em Santa Maria, em mais de uma oportunidade, para falar sobre o assunto, em reuniões organizados pelo Sindicato. O Diretor da FUNCEF, conterrâneo teu de Santa Maria, Demósthenes, também esteve discutindo sobre o tema. Além disso, no RS, os membros do GTFUNCEF visitaram todo o Estado fazendo a apresentação da proposta de saldamento, esclarecendo e debatendo. Fizemos, também, o debate nos fóruns organizados da categoria: Congresso Estadual e CONECEF, neste último em dois congressos, pois a discussão foi reaberta. Foi aprovada em todas as instâncias em que foi discutda. A proposta passou por plebiscito. Como o voto não é obrigatório, os cerca de 3.000 votantes parecem pouco ante o universo de 80.000 associados. Mas o que fazer para que as pessoas se interessem pelo assunto, reflitam sobre a Fundação, construam alternativas para seus problemas e participem das decisões de sua entidade? Como fazer para que elas não se pautem pelo denuncismo da grande imprensa (que curiosamente só ataca a quem lhe convém), que tentem acompanhar, minimamente, através das diversas reuniões de aposentados (os que mais têm tempo de se dedicar) ou dos cursos sobre previdência organizados pelo APCEF/RS? Para ser um bom cidadão não se deve apenas ficar reclamando. É necessário tentar informar-se, debater e construir alternativas. E, depois, lutar por elas. Temos que superar a fase do CABRITO QUE SÓ BERRA. Temos que nos humanizar e refletir sobre o que queremos e como fazer para alcançar isso. Conheço a maioria dos integrantes das duas principais chapas (1 e 3) e, pelo meu medidor, as pessoas mais responsáveis, sérias e comprometidas com o futuro da FUNCEF estão na chapa 1. Têm problemas? Óbvio!! Em que administração não temos divergências? Nós, através da APCEF/RS, do Sindicato de POA, da Federação do RS e do Seguro Jurídico, continuamos estudando, reclamando e construindo alternativas para o que consideramos errado ou o que achamos mais adequado. Fazemos reivindicações administrativas e, na falta de sucesso, ajuizamos ações, construímos pressão, etc.
Para falar sobre o REG/REPLAN não saldado, seria necessário uma conversa pessoal, pois o tema é longo e complexo. E, penso, as reivindicações são dirigdas à CAIXA: alteração do método de custeio e fim da vedação à opção ao novo PCS. Sugiro que aprovem, nas assembléias preparatórias ao Congresso Estadual, proposta sobre os dois assuntos e levem ao CONECEF para discussão. Esse era, no meu tempo, a forma adequada de construir políticas e ações. Essa foi a democracia que construímos a partir do movimento de 85. Talvez eu esteja defasada e o "novo" jeito de fazer é reclamar por meio eletrônico. Apenas acho que o resultado não será prático, quem sabe será político. bjs

Athos Ronaldo Miralha da Cunha disse...

Meus caros, abaixo o linque da música que é um clássico no RS.
A letra diz muito...

Abraços

http://www.youtube.com/watch?v=0NXKqCtrDuc