domingo, 19 de dezembro de 2010

Tempos de peleias

Athos Ronaldo Miralha da Cunha
twitter.com/athosronaldo

Zeca Diablo ajoelhou-se diante do córrego para matar a sede.
Vinha de uma longa jornada de cavalgadas e peleias. No último combate contra as tropas de Amaro Missioneiro – um pica-pau das bandas de Santiago – havia sobrevivido por conta de muita sorte. Nem sabia explicar como estava ali diante de uma límpida água corrente. Seus companheiros de embate haviam sido mortos ou estavam dispersos na pampa. Alguns se bandearam para o Uruguai na tentativa desesperada de salvar a própria pele.
Sentia-se salvo por aquelas paragens que mal conseguia decifrar por conta de uma noite montado no tordilho. Vislumbrara um capão de mato, uma sombra para descanso e, quem sabe, uma água corrente para saciar a sede. Cavalo e cavaleiro estavam exaustos.
Mas uma dúvida corroia-lhe a mente. Quando fugira do embate, o irmão estava numa luta feroz de adaga com Amaro Missioneiro. Ouviam-se os berros e tilintar das adagas no entrevero – faíscas de ferro branco – e balas de espingarda quando perdera o irmão de vista. Será que o velho João das Chilenas havia sido abatido pelo Amaro? Ainda retumbava em seus ouvidos os balaços desferidos por Amaro Missioneiro e rogava aos céus por ainda estar vivo e ter encontrado uma sanga para se refrescar da cansativa noite de fuga. A emboscada dos chimangos havia exterminado as tropas de João das Chilenas.
Agora, Zeca Diablo estava ali com o rosto no riacho, todo estropiado, sorvendo a água límpida da sanga e sem saber por onde andava e o que sobrara da tropa dos maragatos do irmão João das Chilenas. Acocorado na beira do riacho se refrescava. Então sentiu um gelado cano de revólver na nuca. No reflexo da água pode ver a cor do lenço branco do homem que apontava a arma.
– Tu és irmão do corno João das Chilenas? Vire-se para ver o verdadeiro Diablo.
Zeca levantou lentamente e encarou a figura de Amaro Missioneiro. Não teve muito tempo para pensar. Nas peleias de 24 conversava-se pouco, se atirava bastante e se degolava demais.
Um estrondo de arma de fogo, novamente, zuniu em seu ouvido. Um silêncio no capão depois de uma revoada de cardeais. Mais um gaúcho morto pela luta fratricida. Amaro Missioneiro tomba sobre as águas do riacho com um tiro certeiro no peito. Cai de costas alvorotando os lambaris.
– Nesses tempos de peleias, tem que ter mais cuidado... Diablito – João das Chilenas falou sorrindo.

"I have a dream"

Athos Ronaldo Miralha da Cunha
twitter.com/athosronaldo

Um dos mais memoráveis discursos da história foi feito por Martin Luther King, “I have a dream”. Falava de paz e de que a convivência entre negros e brancos deveria ser fraterna. O discurso foi realizado no início da década de 60 do século passado para uma multidão de 200 mil pessoas. A partir de então todos nós tivemos um sonho quando queríamos falar de liberdade, paz e uma vida digna.
Há um século o Internacional nasceu para combater o preconceito. Jovens queriam jogar futebol e fundaram um time onde qualquer pessoa poderia jogar independente de sua cor. Os jovens Poppe tinham um sonho.
Nos últimos anos os colorados não têm motivos para reclamar, a maior torcida do Sul do Brasil extravasou sua alegria em inúmeras conquistas: Duas Libertadores, Mundial, Gauchão, Sul-Americana e Recopa. Mas nós queremos ser felizes para sempre. Incessantemente buscamos a felicidade em todos os jogos, em todas as decisões. Esse é o nosso sonho. E para isso é formado um time de futebol. Para vencer.
A vida é formada por momentos felizes, eufóricos e de êxtase, mas também faz parte de vida – e é da natureza humana – o sentimento de tristeza e derrota. Infelizmente a felicidade não é eterna e as lições de um insucesso são bases para novas conquistas. O desfecho do campeonato mundial interclubes nos provoca inúmeras reflexões, e são reflexões que não devem ser feitas no calor da emoção. No “Decálogo do contista” Horacio Quiroga – escritor uruguaio (1878 – 1937) – afirma que não devemos escrever sob emoção. Devemos deixá-la morrer e depois evocá-la. Assim, a razoabilidade de uma avaliação acerca do desastre em Abu Dhabi pode ser mais produtivo e melhor assimilado.
Nos últimos cinco anos o Internacional esteve nas principais decisões e novas Libertadores virão para provocar a nossa taquicardia e novas comemorações na Presidente. Nós buscamos mais estrelas para colocar na camiseta. E temos um encontro marcado com essas estrelas e não faltaremos a esse encontro. Meu coração é vermelho, mas brilha como as estrelas no céu. E como diz a letra da música: tudo é garantido após a rosa vermelhar, tudo é garantido após o sol vermelhecer. Ou melhor: tudo é garantido após a estrela vermelhar.
Eu não sei quais serão as próximas conquistas do Internacional. Eu não sei quais serão as nossas estrelas no peito. Mas uma coisa eu posso afirmar: eu tenho um sonho.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Encontro com a chuva

Athos Ronaldo Miralha da Cunha
twitter.com/athosronaldo

Enquanto ando ao encontro da chuva.
Fujo da sombra da minha consciência.
Trago teu sabor no aroma da uva.
E o encanto da vinha na tua ausência.

Vou ao encalço das sangas profundas,
E deixo na margem a lágrima escondida,
Que recobrem cantos da noite fecunda.
E cicatrizam no peito, antigas feridas.

Acompanho só o ocaso dos remansos
No horizonte insano das taipas futuras
Ao som das guitarras dos pirilampos
Eu ouço acordes das milongas impuras

Procuro sossegos encobertos no açude.
Acariciando a película das mágoas
Refaço os meus encontros rudes
Remando silêncios no lodo das águas

Velho Taura

Athos Ronaldo Miralha da Cunha
twitter/athosronaldo

O Velho Taura levantou cedo. Arrastou alpargatas pelas dependências da casa e foi para a cozinha preparar o café para os netos. Colocou a chaleira com água no fogão e cevou o mate. Gostava de matear solito.
Madrugava nas primaveras, despertava antes de o sol nascer. Eram nas manhãs os momentos de lembranças, sem as correrias dos pirralhos e os afazeres do genro e da filha antes de saírem para o trabalho. Os “recuerdos” vinham como faíscas de um tempo remoto e ficavam nítidas na mente os antigos anos de gaúcho do campo. Castração, rodeios, carreiras e tertúlias nos galpões. Introspectivo diante do chiar da chaleira, recordava as andanças pela pampa gaúcha.
– O tempo passou ligeiro para quem ainda briga com os anos! – falou baixinho e sorveu um gole do amargo.
Certa feita – há mais de três décadas – se atracou no ferro branco por causa de uma fogosa percanta. O adversário era um gurizote chimango e ele um Taura maduro sem lenço no pescoço. O piá era muito ligeiro, mas num instante de distração levou um corte fundo e fatal no abdômen. Os olhos arregalaram de pavor e a queda do jovem guasca foi lenta sobre o solo.
O sangue do rapazola jorrando como uma sanga em dia de chuvarada, ainda, o atormentava. Após aquela pendenga, o Velho Taura se aquerenciou num rancho e nunca mais saiu para outras peleias. Nas noites de insônia via nitidamente os olhos faiscantes do chimango antes do último tombo.
A mãe do guri rogou uma praga diante do seu esquife. Disse que o assassino de seu amado filho pagaria muito caro. E que perderia tudo que tinha. Não viveria no seu mundo. Não teria mais um horizonte.
E isso parecia muito cruel. O Velho Taura não entendeu direito o que seria perder o horizonte. Mas o fato é que depois daquela contenda tornou-se um senhor pacato e de poucos amigos. Ensimesmado na vastidão da pampa. Constituiu família e teve uma vida sem sobressaltos.
Hoje, estava ali na cozinha lembrando e rememorando seu passado de campeiro. Vez por outra assobiava um chamamé para lembrar os afagos de uma castelhana.
Colocou umas folhas de erva-cidreira no mate e foi para a sacada do edifício no 14º andar no centro de Porto Alegre. Como fazia todas as manhãs, tentou buscar a vastidão da pampa, mas foi em vão.
Em sua frente uma parede de concreto. Há anos que havia perdido a pampa... o seu horizonte de campeiro.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Dar com os jegues n'água

Athos Ronaldo Miralha da Cunha
twitter.com/athosronaldo

Consta que em num passado distante, em uma querência desse continente, houve uma disputa entre dois cavaleiros. Um chimango e um maragato deveriam transportar uma carga até determinado lugar. Quem chegasse primeiro receberia o cobiçado prêmio, a relíquia de uma adaga farrapa com cabo de prata.
Como o caminho era incerto entre várzeas, coxilhas e canhadas, o chimango escolheu algodão como carga por ser mais leve. O maragato optou pelo sal por ser mais volumoso. Mas os competidores não contavam com um rio no trajeto. Ao atravessá-lo, a carga do chimango umedeceu e tornou-se extremamente pesada. O cavaleiro do lenço branco perdeu e ainda quase morreu afogado e o do lenço vermelho perdeu a carga dissolvida pela água.
Os dois competidores fracassaram no intuito de transportar a carga. E deram com os burros n’água – vindo daí o ditado – e não receberam o prêmio. A tão sonhada adaga farrapa e, de lambuja, uma cuia que foi de Bento.
Não sei se José Serra carregava sal, algodão ou alguma mala sem alça, e muito menos a cor de seu lenço, mas o fato é que o candidato não conseguiu levar a carga e não recebeu o prêmio. O tão sonhado palácio no planalto. Podemos afirmar que José Serra “deu com os burros n’água” nessa eleição.
Algumas decisões tomadas durante a campanha e outras decisões não tomadas antes da campanha contribuíram para sua derrota no 2º turno. A primeira delas foi a demora em entrar, definitivamente, com ímpeto de candidato, visto que a sua principal adversária já estava com o cavalo encilhado e a carga na garupa. Posteriormente a polêmica da escolha do vice. Um Índio, que se tivesse portado como um “flecha ligeira” seria diferente, mas ele mais parecia um “touro esquentado”.
No entanto, o que contribui para o naufrágio da carga de Serra foi o arremesso de uma despretensiosa bolinha de papel branco por um suposto e desavisado militante vermelho. Uma bolinha de papel sem fins lucrativos tornou-se o centro de uma falsa polêmica requentada diuturnamente pelos marqueteiros, num debate inconseqüente. Mas Serra não sai totalmente derrotado. Qualquer candidato apresentado pela oposição seria vencido pela Dilma. O eleitor mais humilde votou majoritariamente em Lula e na continuidade do governo representado pela Dilma. Não era um simples rio que estava na trajetória de Serra.
Olhando-se a geografia das votações percebemos que nos estados menos desenvolvidos economicamente, a candidatura de Dilma foi fragorosamente votada. Mesmo que Serra fizesse campanha em um jegue, por todo o nordeste do Brasil, ele, ainda assim, daria com os jegues n’água.
Como em política sempre estamos fazendo prognósticos, fica a impressão que Serra, além de dar com os burros n’água, vai ter que tirar o cavalinho da chuva. Pois um trem mineiro partiu da estação. Aécio chega a Brasília com um cordão de... vagões à tiracolo.
Enfim, como aqui por essas bandas temos um eterno dualismo, fica a dúvida para saber quem era lenço branco e lenço vermelho na eleição. Pois, de minha parte, não gasto pólvora em chimango.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O dia histórico

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Alguns acontecimentos deixam marcas que nem o passar dos anos consegue apagar. E somos capazes de lembrar o que estávamos fazendo no momento daquele episódio que envolvia alegria, emoção ou comoção.
Consta que os gaúchos, com mais de 50 anos, lembram o que estavam fazendo no dia da morte de Pedro Carneiro Pereira. Era um domingo ensolarado de um longínquo outubro de 1973. Eu jogava nos infantis do “Gandense” e disputávamos um amistoso em Tupanciretã. Tudo bem, eu era reserva e joguei os minutos finais do segundo tempo.
A morte de Airton Senna também foi motivo de profunda tristeza. Naquele dia eu estava em uma festinha de criança em Itaara. Um almoço triste, mas ensolarado.
No dia 11 de setembro de 2001 eu estava em frente ao bebedor servindo um copo de água quando uma colega passou e disse: aviões estão sendo jogados nos edifícios em Nova Iorque. A partir de então o dia parou, nossos olhos ficaram vidrados diante da televisão. O terrorismo em tempo real.
Os atentados ao World Trade Center foram um marco. Uma comoção mundial, o ato terrorista marcou o início do século XXI. A partir de então a segurança das metrópoles foram profundamente alteradas e mais minuciosas. Qualquer bisnaguinha contendo gel na bagagem de mão era motivo de desconfiança nos aeroportos.
No entanto, o dia 13 de outubro de 2010 estava reservado especialmente como um dos mais solidários desses tempos ditos modernos. Um simbolismo recheado de solidariedade e esperança. Assim, essa quarta-feira em que 33 chilenos ressurgiram das cinzas ficará nas nossas consciências. Será o dia em que a humanidade se solidarizou com os trabalhadores mineiros. E cantou junto seu brado de vitoria: Chi, chi, chi, le, le, le. Um resgate transmitido ao vivo para todos os cantos da Terra. Cada mineiro que emergia pela Fênix II era uma lágrima que escorria pela face. O episódio do Chile nos tornou um pouco mais humanos. Menos raivosos e mais condescendentes.
Nesse mesmo dia ao cair da tarde estava marcada a assembleia dos bancários para definir os rumos da greve. Fiz uma breve manifestação e falei da solidariedade e da indignação. Sobre a solidariedade invoquei os ferrinhos que também eram uma categoria que tinha uma sólida base social e de luta. E extremamente solidários e, também, sofriam as agruras da vida e de péssimas condições de trabalho. Indiretamente, homenageando os ferrinhos estava homenageando os trabalhadores chilenos.
Daqui a alguns anos ainda lembrarei do dia 13 de outubro de 2010 como uma breve e emotiva manifestação em uma assembleia de bancários, mas com o coração nas profundezas de uma extinta mina no deserto do Atacama no Chile.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Discriminação e Isonomia - Carta aos bancários

“Há cantos que calam vozes
E há vozes que calam cantos
Como calar, no entanto
O claro canto dos pássaros
Se pra cantar nascem tantos”
Colmar Duarte.

Estamos a caminho de mais um desfecho das negociações salariais. E pelo visto nada alentadores. A regra dos últimos oito anos vai se repetir. Fazemos uma greve forte e levamos um índice aquém do tamanho do nosso movimento. Diria Honório Lemes: gastamos pólvora em chimango.
Mesmo assim, tudo estaria na mais santa paz se a Caixa – governo Lula – não praticasse mais um ato discriminatório. Não é de hoje que os gestores vêm excluindo colegas que não estão nos planos orientados pela direção. E, o pior de tudo, com a subserviência dos colegas que nos representam. O silêncio das entidades representativas é ensurdecedor. E a empáfia dos gestores é assustadora.
Nas cláusulas especificas a Caixa – governo Lula – oferece um aumento linear para quem está no PCS 2008. E quem não está nesse plano fica discriminado. Nos últimos anos a Caixa – governo Lula – vem diuturnamente discriminado colegas. E os “capas” do movimento sindical capitaneados pela Articulação Bancária estão inertes. Inebriados pelas tangências do poder. Encantados pelas mesas, ditas de negociações, que mais parecem um palco de egocêntricos e “iluminados” numa ilha da fantasia.
Se temos uma mesa única. Se temos uma campanha unificada. Então, por que aceitar uma proposta que discrimina? Uma proposta que divide? Uma proposta que prima pela desigualdade. Essa proposta deveria ter sido recusada na mesa de negociações porque fere o princípio da isonomia pelo qual tanto lutamos.
Chegamos ao cúmulo de um grevista não estar nesse plano e não levar o aumento. E um pelego que está no PCS 2008 ganha o aumento. Ou seja, finda a campanha salarial um pelego tem maior aumento que um grevista. Devem estar rindo dos palhaços que somos nós. Companheiros, lutem para ajudar os pelegos.
Quando o comando recomenda a aceitação dessa proposta ele está conivente com a discriminação. Está conivente com o descaso da Caixa. Será desalentador ouvirmos o discurso do pós-greve fazendo loas às conquistas. Qualquer tergiversação é retórica para acalentar bovinos.
Isso nos deixa indignado. E o tamanho da nossa indignação pode se refletir nas urnas, pois eu esperava mais de um governo popular. Eu esperava mais de uma candidata que se orgulha de ser a mãe do PAC e do Minha Casa Minha Vida. Eu ainda não acredito que no apagar da luzes do governo Lula a palavra mais pronunciada seria discriminação. E pensar que há oito anos a esperança venceu o medo. Nesse segundo turno a indignação poderá vencer a esperança e isso é temerário. Por enquanto, meu voto está sub-judice.
Durante a greve eu vi várias camisetas com os dizeres “Igualdade de direitos para todos” e “Isonomia entre novos e antigos”. Camisetas essas patrocinadas pelos sindicatos do RS e Fetrafi. Será que não é chegada a hora de fazermos uma campanha contra a discriminação?
Se você fizer greve... sorria, você ainda vai ser discriminado.

Athos Ronaldo Miralha da Cunha
Santa Maria – RS

No linque abaixo Canto Livre com Cesar Passarinho

http://www.youtube.com/watch?v=oTmBpZrhYg4&feature=related

domingo, 3 de outubro de 2010

O espumante de Plínio

Athos Ronaldo Miralha da Cunha
twitter.com@athosronaldo

Devemos reconhecer que os debates seriam monótonos e técnicos se não houvesse a participação de Plínio de Arruda Sampaio do PSOl.
Todo o encontro de presidenciáveis é um momento para se discutir os rumos do Brasil. Olhar no olho de cada candidato e decifrar a sua sinceridade. Os debates são o auge da campanha política, o momento do vamos ver. No entanto, como toda reunião, se faz necessário alguns instantes de descontração. Aquela hora em que relaxamos e tomamos novo ânimo para seguir ouvindo. E coube ao Plínio essa incumbência, essa mudança de rumo dos encontros. Um debate com Dilma, Serra e Marina seria previsível. O vermelho, o azul e o verde. Seria alguma coisa próxima a uma canção de ninar. Tudo muito sério, certinho e definido.
Plínio era a incerteza, a imprevisibilidade. A candidatura Plínio foi fundamental nessa campanha, fez o contraditório, colocou o dedo nas feridas. Foi alegremente inconseqüente e terrivelmente mordaz. Eu diria que Plínio foi um gol de bicicleta de impedimento. Bonito, mas foi anulado.
Nós podemos perceber as grandes diferenças de postura nos pequenos detalhes. Enquanto os demais candidatos traziam os assessores a tiracolo para o último debate, Plínio chegou de mãos dadas com as netas. Nessa mesma noite, em alguns momentos, lembrou o Brizola com a sua espirituosidade guasca, aquela coisa meio fora do lugar. O Plínio foi um candidato ideológico, um militante do partido. O marxista convicto dessa eleição. Sendo o mais idoso dos candidatos, conseguiu cativar os mais jovens. E isso tem algo de dialético. Eu diria que Plínio foi um idoso rebelde. Usou o deboche e a ironia fina sem ser mal educado.
No dia seguinte ao debate da Globo, o velho marxista cancelou seus compromissos de campanha e ficou em frente ao mar, no Arpoador, degustando um espumante. Qual candidato tomaria um espumante pela manhã? Quem poderia assumir esse “desvio pequeno burguês”? Tinha que ser o Plínio. É claro que diante de um espumante borbulhando a gente adia a revolução, lógico. Ainda mais em frente ao mar do Rio de Janeiro.
Durante o horário eleitoral e, principalmente, nos debates nutri uma simpatia pelo candidato. Pelo jeitão engraçado, pelo humor descolado dos protocolos. O Plínio chamando o Serra de Zé era impagável.
Assim, diante da urna eu titubeei. Mas não digitei o número de Plínio. Afinal, já não sou tão rebelde como era antigamente, embora tenha adiado a revolução por conta de uma cervejinha – naquele tempo ainda não era cervejão – a mais na noite anterior. Mas em casa, saboreei um liso da colônia sob a sombra de uma corticeira. Pois a revolução a gente deixa para os jovens como o Plínio.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A Mancha Verde ou simplesmente Marina

Athos Ronaldo Miralha da Cunha
twitter.com@athosronaldo


Existe uma mancha verde no país!
É grandiosa, nobre e provocadora. Invoca sentimentos solidários e emoções transformadoras. E é avassaladora porque nos completa e nos encanta com sua bondade e lucidez.
Não é uma macha verde que destrói, não reproduz a violência e não fomenta a algazarra. Essa mancha verde não dói e não manipula jovens e adolescentes. E não utiliza a força como instrumento de poder. Pelo contrário, essa mancha propõe a paz. Tem ojeriza à guerra. É humanitária e deseja viver a vida intensamente na plenitude que encerra. Essa mancha verde é simples, como são simples as vidas das pessoas simples do Brasil. Ela é eloquente, mas no seu silêncio é envolvente e prazerosa.
Com essa mancha verde cataremos recursos nas vias públicas, cataremos sustento nas calçadas e reciclaremos nossas vidas, pois não somos matérias descartáveis. Essa mancha quer salvar a Terra e não erra quando recolhe cacos de saudades nos sublimes recantos dos sonhos. Nos carrinhos que calejam as mãos transportaremos o pão que saciará nossa fome. Nos caminhos que machucam nossos pés trilharemos como se fossem alamedas verdejantes orvalhadas pela manhã.
Enxergamos no verde a esperança. Exageramos na tonalidade porque essa mancha sendo forte iluminará as veredas alegres e rastos fartos de solidariedade. E veremos nessa mancha que se alastra em nossos corações e invade nossos peitos o desejo dos sonhos que moldam a utopia em realidade.
Essa mancha verde é como a primavera, é recheada de flores com perfume de gente. Está presente e sente o clamor novo desse povo que teima em ser feliz. Essa mancha representa a felicidade porque estamos felizes e a tristeza porque somos humanos e humanos ficam tristes. É um choro de uma criança em um humilde berço porque esse grito representa a vida pedindo para ser vivida. Ela é branca, parda, negra e mulata. Ela é um banho numa cascata numa tarde de verão. Essa mancha é coração! Mas também é um chimarrão na bomba de prata.
Essa mancha verde complementa a lúdica brincadeira das crianças, a energia dos adolescentes, o carinho dos enamorados, a responsabilidade dos adultos e a sapiência dos anciãos. Ela está nas nossas mãos e é rude e requintada; é discreta e alvorotada e simboliza as atitudes honradas dos homens e das mulheres.
Essa mancha verde representa mais uma camiseta que colocamos para celebrar os desafios que a vida nos proporciona. É o sangue dos jovens que, por serem audaciosos, tombaram nos anos de chumbo. É a vitória dos companheiros que já não estão entre nós.
Enfim, essa mancha verde pode até ser escandalosa, mas é escandalosamente humanitária e simplesmente Marina.

Jogão

Athos Ronaldo Miralha da Cunha
twitter.com@athosronaldo

Qual colorado imaginaria que entre o Bi da Libertadores e o mundial interclubes em Abu Dhabi ainda haveria espaços para fortes emoções?
Internacional e Corinthians fazem um dos clássicos mais emocionantes dos últimos cinco anos. Uma rivalidade que se acentuou a partir do Brasileirão de 2005 em que a nossa estrela fora roubada, por conta de um árbitro safado e do canetaço de um juiz do STJD.
É lugar-comum dizer que é bonito de ver o Beira-Rio lotado. Mas a vida é cheia de lugares-comuns. Então, é bonito de se ver o Beira-Rio lotado. Nossos olhos passeiam inquietos pelas arquibancadas e se acomodam na bandeira do Rio Grande do Sul ou no rosto de Che Guevara. Sempre há um sorriso meigo de uma criança ou uma graciosa colorada para desviar nosso olhar caliente.
Estou na arquibancada superior no memorável jogo pelo brasileirão de 2010 em que o colorado venceu o “curintia” nos últimos e derradeiros minutos. Ao meu lado um senhor, com uma camiseta do tempo em que a Coca-Cola era o patrocinador oficial, me confidencia que estava assistindo um jogo no Gigante pela primeira vez. Nada demais se meu parceiro de geral não tivesse 65 anos. Na turma da excursão um casal – com algumas horas de voos nos anos – comentava que a última vez que estiveram no estádio fora em 1979, há 31 anos. O ano do Tri-campeonato invicto.
Cada um dos 38 mil torcedores presentes, naquela tarde de sol no Gigante, tem uma história de paixão para contar. Uma aventura que explicasse a devoção pelo Clube do Povo. Um motivo para ostentar com orgulho a camisa colorada. Mas para o casal que retornava às arquibancadas após três décadas e o cidadão que via o Beira-Rio pela primeira vez foi um jogo especial. Talvez, em homenagem a eles tenha sido tão eletrizante.
Ao final da partida todos estavam felizes e ovacionavam os craques, noto que uma lágrima indecisa percorre a face do colorado ao meu lado. Disfarço e o deixo só com sua emoção. É, o Inter mexe com nossa paixão e, por vezes, no presenteia com uma contagiante taquicardia.
Quando Nei provocou o pênalti com aquela bela defesa, eu pensei em Marx, “a história acontece como tragédia e se repete como farsa”. E me lembrei da Copa da África no lance do Uruguai... o Renan vai pegar. Mas o futebol não está nem aí para barbudão comunista. E Bruno César acaba com a farsa e converte o pênalti para o Corinthians.
No entanto, o destino nos prega mais uma peça e Andrezinho está prestes a bater uma falta aos 48 minutos e pode dar a vitória por 3 a 2. Novamente, me reporto a Marx, pois na década de 70, numa partida contra o Cruzeiro, o Inter virou o jogo nos últimos minutos com mesmo resultado de 3 a 2. Mas dessa vez a tragédia se repetiu – para o adversário, é claro – e comemoramos um dos jogos mais emocionantes dos últimos tempos. O aforismo de Marx estava salvo e o velho colorado ao meu lado não conseguia conter as lágrimas.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O Bugio Palpiteiro

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O polvo-profeta e Mick Jagger são as maiores vedetes da Copa da África do Sul. O bicho porque fez prognósticos corretos acerca dos jogos da Alemanha e o roqueiro por ser o maior pé-frio.
Paul, como é chamado o molusco, vive em um aquário na cidade alemã de Oberhausen. A previsão de Paul se confirma quando ele escolhe a sua janta – que está em dois recipientes – com as bandeiras das seleções. A bandeira escolhida é a da equipe vencedora. E com isso o polvo é atração na cidade e, consequentemente, o prato mais consumido. Certamente, a vida de Paul correrá risco quando ele errar alguma profecia.
Como gaúcho não fica para trás nessas coisas para inglês ver e brasileiro comentar, surgiu um bugio palpiteiro lá para os lados de Uruguaiana. Faz algum tempo que o bichano acerta suas previsões. Começou em 2006 com a vitória do Internacional no Japão. Num primeiro momento foi motivo de chacota, mas depois o povo olhava meio desconfiado, mas com admiração.
O nome dele é Pablo, mas é conhecido em toda a pampa como “Bugio Palpiteiro”. Podemos dizer que é um vidente de mão cheia. E nós sabemos como o bugio se defende ou briga com seus primos.
Naquela oportunidade o peão – maragato e colorado – colocou duas gravuras em uma árvore, uma do Inter e outra do Barcelona. O bicho tapou de barro o time espanhol. O gaúcho voltou para o rancho meio desenxabido, pois o bugio havia escolhido o Barcelona. Mas logo percebeu que Pablo marcava o que seria derrotado. E deixava limpo o outro cartaz. Uma espécie de ficha limpa no futebol. Assim seguiram-se as previsões e o time que não era alvo da ira do bugio seria o vencedor.
O fato é que Pablo acertou todos os vencedores do campeonato gaúcho. No jogo da Argentina e Alemanha, Pablo não quis fazer suas previsões. O peão da estância ficou desconfiado e pensativo: ou Pablo era castelhano ou tinha correntina na história.
No jogo contra a Holanda, Pablo jogou barro na equipe brasileira e ninguém acreditou, até desdenharam do vidente guasca. Mas ao final da partida Pablo virou o herói de toda a fronteira. Mas sem a devida popularidade do polvo alemão, pois vivia enfurnado em um fundo de rincão, quanto muito dava uma banda pela barranca do rio Uruguai... bombeando uma castelhana.
Com o final da copa, Pablo continuará dando palpites. Corre um diz-que-diz que vai se dedicar às eleições. A metodologia será a mesma, o peão da fazenda colocará as fotos dos presidenciáveis em uma árvore para saber quem será o escolhido, mas alguém comentou que Pablo precisa saber se Mick Jagger virá ao Brasil apoiar algum candidato. Enquanto isso, Pablo fica lá na barranca treinado suas previsões com os candidatos a deputado.

terça-feira, 6 de julho de 2010

As promessas da Copa

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Quando o assunto é a tão propalada rivalidade futebolística entre brasileiros e argentinos, fico numa posição neutra. Não consigo ser um ferrenho secador dos castelhanos. Talvez por ter um pezinho na Espanha e ser descendentes de Bascos. Entendo que essa rivalidade está mais na mídia do que entre as torcidas.
Se somos rivais... tudo bem, mas a Argentina tem uma maneira diferente de encarar as mais variadas situações e algumas delas merece nossa admiração. Um bom exemplo foi a recepção feita aos jogadores no retorno a Buenos Aires. Lá, dez mil pessoas deram vivas aos atletas. Aqui, Dunga é execrado e a grande discussão é o nome do próximo técnico.
Na copa da África do Sul sonhamos com uma decisão sul-americana, mas a lógica da tabela dos jogos não funciona com essa simplicidade. E Messi e Kaká não jogaram como o esperado. Não foram “locos” suficientes com a jabulani nos pés.
Alguns craques dessa copa pareciam políticos tradicionais em época de eleição. Havia a promessa de atuações brilhantes e jogadas espetaculares, mas o prometido não foi cumprido. No entanto, alguns técnicos roubaram a cena. Dunga comprou uma briga com a imprensa e arrumou – na mesma proporção – admiração e desafetos. Era a prática do velho orgulho gaúcho. O técnico da França Raymond Domenech não foi um modelo de boa educação. E Maradona tinha o maior desafio, com a sua peculiar arrogância e deboche, prometeu desfilar pelado no Obelisco da Avenida 9 de Julio em Buenos Aires. Convenhamos, o Maradona pelado não é algo esteticamente apreciável.
Em caso de vitória da Argentina havia a sugestão de que a Gabriela Sabatini cumprisse a promessa no lugar de Dieguito, Mas a Alemanha com uma avalanche de gols nos livrou desse espetáculo indigno do “Señor Tango”.
No Brasil, em várias ocasiões, o futebol serve como metáfora para a política. Quantas vezes, nos discursos, o presidente da república usou o futebol para explicar melhor seu raciocínio. Como a Copa do Mundo é uma espécie de porta de entrada para as eleições no Brasil espero que a moda de desfilar pelado não chegue à política.
Mas como em política e futebol nada mais surpreende, torna-se inimaginável nossos presidenciáveis passeando pelo obelisco no Rio de Janeiro ou pela Praça dos Três Poderes em Brasília, como seguidores das promessas de Dieguito. No entanto, se for a modelo paraguaia na praça, é possível imaginar o balanço das “jabulanis” da guria.

sábado, 26 de junho de 2010

Maria Vuvuzela

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A Copa do Mundo mexe com nossos sentimentos. A rotina dos brasileiros se transforma nesse período, o país veste verde e amarelo e o coração bate mais forte. O assunto é a bola, chuteira e os complicados esquemas de jogo dissecados exaustivamente por entendidos e não entendidos em futebol.
Na Copa da África do Sul, o penteado da moçada e as camisetas “baby look” dos africanos também fizeram parte dos comentários femininos. Um reles confronto entre Coréia do Sul e Grécia proporciona acalorados debates e minuciosas análises nos programas esportivos no cair da tarde noite adentro.
Durante a execução do hino nacional sentimos uma enorme emoção. As lágrimas mostram nosso sentimento pátrio, principalmente, na parte que diz “sirvam nossas façanhas”. Opa!!
Vou refazer a frase. Não quero passar como reacionário do sul do Brasil e adepto do estilo Dunga de beira do campo. Então, as lágrimas mostram nosso mais profundo sentimento pátrio, principalmente, na parte que diz “conseguimos conquistar com o braço forte”. Vibramos pelo Cacau da mesma forma que vibramos pelo Kaká, pouco importa se um deles é um “ex-brasileiro”.
O envolvimento com a Copa vai além do que supomos imaginar e pode se refletir na vida de uma pessoa. Uma conhecida amiga, ostentando a gravidez de nove meses, estava em dúvida sobre a escolha do nome da menininha que estava por chegar. Janaina Jabulani, Maria Vuvuzela, ou Bafana Beatriz. Eram as opções da faceira mamãezinha. E eu pensando na formatura da guria no momento de ser anunciado o nome da formanda. “Bafana Beatriz, recebei esse anel como símbolo do grau que vos confiro”. Coitadinha!
Num primeiro momento pensei em se tratar de uma brincadeira da futura mamãe. E sugeri alguns nomes que foram, prontamente, rechaçados.
O primeiro foi Maria Sokratis Papastathopoulos que foi, peremptoriamente, recusado. Então, quem sabe, para homenagear a África e a Copa poderia ser Maria Mandela. Tentei argumentar sobre o mito Nelson Mandela... simplesmente balançou a cabeça negativamente. Maria Fabulosa ficou fora de cogitação. Ela só disse “África!”. E bateu com o dedo na cabeça como quem diz “entende?”. Maria Podolski? Não! Não gostava de alemães. Povo muito frio.
Como o rumo da prosa estava ficando sério, então, numa derradeira tentativa de sugerir algo mais decente, sugeri colocar o nome da bisneta de Mandela. A garota faleceu em um acidente automobilístico no dia da abertura da copa.
Maria Zenani! Para minha surpresa ela achou o nome lindo. Zenani era bem africano. Esse seria o nome da filha. E eu me despedi da conhecida com a sensação do dever cumprido. Maria Zenani Costa da Silva poderá formar-se tranquila. E ainda teria história para contar.

domingo, 20 de junho de 2010

Nós, os reacionários

O senhor Brasileiro, que em outra encarnação foi jogador de futebol, resolveu opinar sobre o grau de politização dos gaudérios. E pelo modo como enxerga o mundo e a filosofia, diria que o senhor Brasileiro é um pré-socrático.
Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian afirmou que Dunga é gaúcho e os brasileiros do sul são reacionários. Aí o senhor Brasileiro confundiu futebol e política. Coisa que, na maioria das vezes, os democratas misturam.
Um povo que se rebela contra o governo federal e faz a revolução Farroupilha que se estendeu por uma década, é reacionário? Pode ser. Se um bando de caudilhos marcham em direção ao centro do país e amarram seus cavalos no obelisco da capital para pôr fim a um tipo de politicagem é ser reacionário? Somos reacionários. Se liderarmos a cadeia da legalidade para preservar as instituições democráticas é ser reacionário? Somos reacionários.
Poderíamos elencar inúmeras ações dos gaúchos reacionários que elucidariam o grau do nosso “reacionarismo”. Mas o senhor Brasileiro colocou no estereotipo de Dunga toda a sua análise e, assim, todos os gaúchos viraram uma coisa só.
A grande questão é o futebol, essa discussão deveria ser travada no tipo de futebol que praticamos. E aí que o bicho pega. O senhor Brasileiro jogou em uma das melhores seleções do Brasil, a que praticava o futebol arte. Só que o senhor Brasileiro não conseguiu ser vitorioso com o futebol arte e com os seus passes de calcanhar. Em 1982 e 1986 o time canarinho foi estupendo. O talento do Brasil começava na beira do campo de jogo com o saudoso Telê Santana. Mas foi uma seleção derrotada. Encantou o mundo, mas não trouxe o troféu.
Em 1994 a seleção joga um futebol esquemático e técnico. E ressurge das cinzas o capitão Dunga, o reacionário.
Após mais uma derrota em 2006 com os galácticos, novamente, Dunga, o reacionário, volta à seleção em 2010 e implementa o futebol de equipe. Do coletivo. Sem os estrelismos e constelações. Seria demais para o senhor Brasileiro ver – mais uma vez – triunfar uma equipe liderada por Dunga, o reacionário. O senhor Brasileiro era inteligente quando jogava, tinha futebol na cabeça e nos pés. Suas entrevistas não tinham a mesmice do “com certeza”. Então, deve ser cruel ver um ex-jogador bruto e técnico “moldado a facão” ser vitorioso.
Mas nós, os reacionários, somos assim. Fazer o quê? Já fizemos das nossas na política e, certa feita, na década de 70, nos rebelamos contra o Brasil e desafiamos a seleção canarinho num jogo que acabou empatado em três gols. Tudo por causa da não convocação de um reacionário.
Bueno, esse pessoal do sul já fez um fórum mundial, que foi contraponto a fórum de Davos. Em outra oportunidade, elegeu um negro governador e na última eleição, esse povo machista, elegeu uma mulher para governá-lo.
Putz! Que povo reacionário esse, hein senhor brasileiro?

É coisa do Edson, mas eu acho que é da Cacism

Sou um frequentador assíduo da pista de caminhada do bairro Nonoai – aquele terreno que foi negociado pelo centro de eventos com a prefeitura –, pois bem, lá há duas entradas. Uma pela rua Tamandaí e outra pelo bairro Cidade Jardim, e ali as pessoas queimam as calorias e vão em busca de melhor condicionamento físico.
Num belo dia da semana passada chego pela entrada da Cidade Jardim e o portão está fechado. Pombas! Um transtorno.
Faço o contorno e entro pelo acesso da Tamadai, faço minha caminhada, meia dúzia de voltas e resolvo perguntar para uma senhora que estava em uma das casas, localizada no centro da pista, qual seria o motivo de o acesso estar fechado? Afinal, para quem vem do Big, rodoviária e da Duque de Caxias é um empecilho fazer uma volta para entrar no parque. A senhora que me atendeu falou que “era coisa do Edson”.
Esse é um típico exemplo de que quando a coisa funciona sempre tem alguém para inventar um entrave. Sempre tem um iluminado para inventar uma regrinha para atrapalhar o bom andamento da coisa.
Se a coisa é do Edson tudo bem, mas eu acho que é da Cacism. Enquanto não reabrem o acesso sigo caminhando pelas ruas, hoje fui até a gare e voltei... redescobri alguns monumentos da Av. Rio Branco.
Obrigado Edson. Ou seria Cacism?

sexta-feira, 18 de junho de 2010

África do Sul x Eslovênia *

Na Copa de 2002, realizada na Coréia e Japão, os jogos eram noturnos e nós tínhamos a torcida coruja. Uma torcida que varava as noites para assistir os principais confrontos.
Em uma madruga Jurema tem um sobressalto.
– Acorda Teobaldo! Acorda!
– Hummm... hein... o que é mulher?
– Acorda Teobaldo! Acorda!
Com um forte cutucão no marido, Jurema desperta o sonolento e lento Teobaldo no meio da noite. O visor do rádio-relógio marcava 4 horas da manhã.
– O que é Jurema? Tu ta ficando louca... no bom do sono. Bem na hora que eu iria chutar um pênalti. Isso é sacanagem e da grossa. Bem na hora que eu ia fazer um gol no Mazurkievski.
– Tão tocando a campainha, vai ver quem é.
– Quem será o maluco... acordar as pessoas a essa hora da madrugada.
– Vai lá atender, Teobaldo. Pode ser uma emergência.
Teobaldo, meio dormindo, levanta-se, coloca as pantufas verdes com pigmentos amarelos e dirige-se à porta. Tateando interruptores e arrastando pantufas pela casa adentro. Imagina doença na família. Pensou em uma tia de Caxias que tava meio mal de vida. – Com o pé no estribo – como se diz na campanha.
– Era só o que faltava! – comenta baixinho para si. – Quem sabe algum vizinho distraído, cheio de álcool após uma noite de farra.
O som estridente retumbava em seus ouvidos.
– Calma já estou indo – responde diante da insistência da “visita” em apertar o botão da campainha.
– Sim? Boa noite, bom dia... sei lá.
– O senhor é o proprietário da residência?
– Não! Sou o amante de minha mulher. Que cê acha?
Teobaldo boceja longamente, escora a cabeça no marco da porta, quase dormindo. Ainda não vislumbrou a fisionomia do indivíduo a sua frente. Sente-se um traste humano semi-acordado. As faces cansadas e os ombros caídos são consequências de uma noite mal-dormida. Ainda lamentava o gol perdido contra o Mazurkievski.
– Eu sou o pesquisador do Ibope e gostaria de saber quantas pessoas estão assistindo o jogo da África do Sul contra a Eslovênia?
– Hãm??!!
O único barulho ouvido por Jurema foi o estrondo da porta, fechada violentamente. Em seguida os passos de Teobaldo, calmamente, em direção ao quarto.
– Tem gente que não tem o que fazer. Pesquisa do Ibope. Por que não vai fazer pesquisa na China? Ora! Me aparece cada um!
– Quem é esse tal de Mazurkievski?
– O goleiro do Uruguai.
– Teobaldo, acorda Teobaldo. O Uruguai não está jogando essa Copa. Dããnnn.
– Da Copa de 70, Jurema, eu estava batendo um pênalti na Copa de 70.
Virou para o lado e dormiu o sono dos justos.
– Goooooooooooooooooollllllll.
Jurema acorda sobressaltada.
– O desgraçado do juiz anulou.
– Dorme, Teobaldo! Dorme!

* 4º lugar no concurso literário de contos crônicas e poesias 2009 da FECI – Fundação de Educação e Cultura do Sport Club Internacional.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Arquimedes - A paródia de Joyce



O livro “Arquimedes” não pretende ser um plágio ou uma vã tentativa de se igualar a James Joyce. Longe disso. Os autores reunidos nesse romance coletivo têm em comum a admiração pela sua obra mais instigante “Ulisses” e pelas peripécias do personagem Leopold Bloom no longínquo 16 de junho de 1904. Logo, esse livro nada mais é do que uma simples idolatria ao escritor irlandês.
O Bloomsday é uma festa literária e faz algumas décadas que no dia 16 de junho os amantes da literatura e aficionados por James Joyce encontram-se nos bares e botecos da vida, nos mais diversos recantos do mundo, para recitar trechos de sua obra.
Santa Maria também realiza o Bloomsday com o apoio da Cesma (Cooperativa dos estudantes de Santa Maria) e do bar Ponto de Cinema. Esse encontro etílico-literário já está inserido no calendário cultural da cidade.
A Cesma foi fundada num dia 16 de junho. Assim sendo, a Cesma também consta nas efemérides do Bloomsday. Para os apaixonados por livros e apreciadores de literatura em Santa Maria é uma incrível e agradável coincidência, que nos estimula e responsabiliza culturalmente. E, com a presente edição, nos desafia.
E foi justamente num desses encontros, entre um copo e outro de uísque, que surgiu a ideia: por que não contarmos o dia 16 de junho de 1978 da Santa Maria da Boca do Monte? Em poucas semanas o projeto foi idealizado com o incentivo e apoio dos autores que prontamente aceitaram a inusitada incumbência. Assim, a partir do décimo quinto Bloomsday, começamos essa empreitada de contarmos as idas e vindas de Arquimedes Brum, justamente o dia que foi fundada a cooperativa dos estudantes. É claro, Arquimedes, um professor de física do Maneco, participou dessa assembleia de fundação.
Sempre tivemos em mente que devíamos homenagear Joyce e não copiá-lo. Então, num primeiro momento parecia um projeto arrojado, difícil e o resultado final ser uma miscelânea sem história. Mas com algumas visitas ao Arquivo Histórico e conversas com amigos que viveram intensamente aquele período, o livro tomou corpo e nos enche de enlevo e satisfação. “Arquimedes” pretende, apenas, ser uma modesta homenagem a Joyce e à literatura. E a todos aqueles que viveram ou desejam conhecer um pouco da cidade coração do Rio Grande.

Athos Ronaldo Miralha da Cunha
Santa Maria, 16 de junho de 2010

Demais autores do romance coletivo.

Antonio Candido de Azambuja Ribeiro
Tania Lopes
Raul Giovani Cezar Maxwell
Orlando Fonseca
Humberto Gabbi Zanatta
Aguinaldo Medici Severino
J.J.
Pedro Brum Santos

Lançamento dia 16 de junho de 2010 na Cesma às 17:30 h.

domingo, 30 de maio de 2010

Esquerda... volver! Ou seria direita?

Para fazermos uma breve reflexão acerca do momento vivido pela dita esquerda devemos remontar a alguns acontecimentos recentes, que são fundamentais para essas elucubrações. Acontecimentos que influenciaram uma nova estratégia de esquerda.
E, queiramos ou não, o PT faz parte dessas análises. Depois de oito anos, qual o futuro de uma esquerda numa possível reeleição do Partido dos Trabalhadores na presidência? Qual a estratégia de um partido de esquerda nesse mundo globalizado pela economia? Quais ações garantem a governabilidade do PT se o partido der uma olhadela à esquerda no próximo governo? Essas perguntas serão respondidas nos próximos anos. Se a vitória de Dilma sepulta o DEM, a de Serra coloca a esquerda em polvorosa. E ressuscita o debate.
O ano de 1989 foi historicamente fundamental.
Um ano trágico para o pensamento de esquerda. O socialismo real desmoronou diante de nossos olhos estupefatos. A queda do muro de Berlin e os regimes ditos socialistas do leste europeu ruíram como castelos de areia. Essa ruína escancarou para o mundo um modelo falido de Estado e um modelo carcomido de gestão pública.
Em consequência disso alguns teóricos conservadores, mais afoitos, fizeram a apologia do capitalismo. Esse sim, real, excludente e concentrador de riquezas. Outros em um arroubo fatalista proclamaram o fim da história. Como se o capitalismo fosse a supremacia do bem-estar social (sic).
Mas diante dessa tragédia a esquerda perdeu algumas referências históricas e vem, ao longo desses anos, titubeando no campo teórico. Há uma crise de existencialismo que tomou conta da ideologia da esquerda que pretendia ser moderna e com visão de democracia participativa.
Em 2002 temos no Brasil a assunção ao poder de um partido de esquerda. O maior partido de esquerda da América e referência mundial. Dentro do governo há um vasto leque a ser analisado, hoje evidenciado pelos moderados reformistas que são hegemônicos na condução da linha política. E que fazem do pragmatismo eleitoral sua maior estratégia.
Costumo dizer que o governo social democrata de Lula é melhor que o governo social democrata de FHC. Para espanto de uns e ira de outros. Se Lula faz um programa de inclusão social e desenvolvimentista, é certo, também, que matem o modelo econômico oriundo de FHC.
Uma ruptura para um novo modelo econômico poderia ser um desastre e exemplos de rupturas desastrosas há inúmeras pelo mundo afora. Nesse sentido o governo interpretou a conjuntura histórica. Assim explicamos algumas medidas conservadoras do governo para manter a estabilidade monetária.
Lula não prometeu fazer uma revolução socialista no Brasil. Pelo contrário, apaziguou a direita com a famosa “Carta aos brasileiros” e com um vice conservador. Dentre outros, assumiu o compromisso com o desenvolvimento econômico com geração de trabalho e renda. E isso vem fazendo, mas o debate ideológico cai em outro campo, o da filosofia.
As perspectivas da esquerda no início do governo Lula eram bem maiores do que temos hoje. Será que as engrenagens da máquina pública não respeitam as ideologias? E, possivelmente, os ideólogos estejam projetando para o próximo governo uma guinada mais a esquerda, visto que a candidata tem uma prática mais revolucionária, por assim dizer, do que Lula. Mas, no bojo da atual conjuntura, o histórico de cada um não quer dizer, absolutamente, nada. Sei lá.
Afinal, o que é ser esquerda hoje?
Aí a porca torce o rabo. Pois nossos parâmetros voltam-se para o totalitarismo ou para o culto a personalidade de um populismo de ocasião.
O que mais ouvimos no Fórum Social Mundial de 2002 de companheiros de outros países, era a mesma preocupação de Lula. “Para o bem da esquerda o governo de Lula tem que ser vitorioso”.
Hoje, podemos dizer que o governo Lula é vitorioso, mas para o bem de quem?
Esse texto á mais reflexivo, pois também não tenho respostas para esse imbróglio todo em que estamos metidos. Mas o essencial nesse momento é debatermos. Afinal, depois da Copa do Mundo no país de Mandela a vida volta ao normal, ou deveria voltar ao normal.

O caminho do Japão

O trabalho de Jorge Fossati é admirável. É uma pessoa vitoriosa em sua profissão. No entanto, seu estilo de armar e ver o desenrolar de um jogo não se coaduna com o futebol praticado ou exigido pela torcida brasileira, mas Fossati transmite seriedade, austeridade e tem aquela cara de vilão de comédia que, para mim, é a sua maior identidade.
O fato é que Fossati não conseguiu estruturar a equipe de forma que tranquilizasse a torcida para a competição da Libertadores, embora esteja entre os quatro melhores da América. A direção tem sua parte de responsabilidade no desempenho da equipe em 2010, que, aos trancos e barrancos –, é assim que se ganha essa competição – chegou às semi-finais.
O momento da troca era esse. Um time que almeja ser campeão da América e vislumbra o campeonato brasileiro, não pode perder um jogo que estava ganhando de dois a zero. Há algo de errado nessa postura e não é falta de experiência.
A Copa do Mundo não deixa de ser uma janela fechada para os jogadores trabalharem sem aquela cobrança incisiva da nossa provinciana e, por vezes, idiota imprensa desportiva. Haverá tempo de sobra para armar o time com esquema definido para enfrentar o São Paulo. O Inter está a um passo de mais uma decisão e, penso, a “final” dessa copa será contra o São Paulo. O Inter até pode perder a final contra os chilenos ou mexicanos, mas, sem sombra de dúvidas, o São Paulo é um time de mais tradição e mais competitivo.
O Internacional vive um momento único em sua história. Tem uma equipe com jogadores acima da média da maioria dos clubes do Brasil e não poderá desperdiçar mais esse arranjo que coloca, mais uma vez, o cavalo passando encilhado. Seja qual for o técnico, a equipe tem que estar madura e focada – o termo da moda – para mais essa epopéia de emoções. Afinal de contas, o Japão é logo ali.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A Marta trama


A Marta Suplicy é uma mulher que aprendemos a admirar por ser uma militante aguerrida contra os preconceitos. Valente ao expor seus argumentos. Claro, em outros não tão longínquos tempos.
Há alguns meses ela incluiu o “relaxa e goza” nos atrasos nos aeroportos. No horário eleitoral fez insinuações sobre vida celibatária de Gilberto Kassab.
Sua inserções na mídia dão conta de alguns deslizes nas ideias, ou um preconceito enrustido.
Recentemente, a ex-ministra e candidata ao senado por São Paulo, afirmou que Gabeira teve participação no seqüestro do embaixador americano em 1969. E que ele, Gabeira, seria o indicado para assassiná-lo. E que a imprensa tinha tratamento desigual com relação as atuações de Gabeira e Dilma na luta armada.
Todos sabemos qual foi a participação de Gabeira no sequestro do embaixador, o atual pretendente ao governo do Rio era um coadjuvante naquele episódio.
Os emails sobre a Dilma circulam pela rede, e os textos são de agressão e denigrem a imagem de Dilma Rousseff. São escritos reacionários sobre grupos de guerrilheiros que combatiam o regime militar.
Eu não vejo problema nas atuações de Dilma e Gabeira nas ações contra a ditadura. Temos que fazer uma análise dentro de uma conjuntura de exceção e censura. E de vidas vigiadas. Cárcere e tortura. Qual a opção dos que divergiam do governo militar? Assim, devo dizer, sem entrar no mérito da importância de cada um na luta armada, que o passado não condena os guerrilheiros. O problema é a ex-ministra ratificar as acusações que recaem sobre Dilma, cobrando que também recaiam sobre Gabeira. Essa é a questão. Esse o fundamento que mais uma vez nos decepciona. Mais uma vez o exercício dialético da companheira paulista deu uma escorregada.
Sobre as manifestações de Marta, Gabeira afirmou: Vou ignorar essa acusação porque já faz muitos anos que ignoro as coisas que a Marta diz.
Se a campanha ainda não começou e estamos nesse estágio de “debates”, o que nos espera no horário eleitoral?
A Marta trama? Não, acho que não. Mas e o título da crônica? O que tem a ver com o “contiúdo” como diria o velho Brizola?
Ah! “A Marta trama” é apenas um palíndromo.

sábado, 15 de maio de 2010

As moedas




Meus caros, vejam o que ocorreu com as moedas de R$ 0,25 e R$ 1,00 após um mês na companhia dos ácidos.
Para reflexão...

Ainda as eleições da Funcef

É importante fazermos uma breve avaliação das eleições da Funcef. Não deve ser feita no calor do pleito nem distante a ponto de perder a emoção. Penso que agora é o momento certo.
Esse processo eleitoral foi muito rico para nós que estamos no Reg-Replan. Talvez tenha sido a primeira vez que aprofundamos o debate sobre as nossas preocupações porque envolvia uma questão de representação. Entendo que fizemos uma grande assembleia virtual protagonizada por essa turma de teimosos que somos. Formamos um grande coro de descontentes. Protagonizamos via internet uma intensa troca de emails e construímos um indicativo conjunto, ou majoritário, e apontamos quem realmente seriam os nossos representantes. A chapa que mais contemplava nossos anseios. Soubemos discutir, não como um grupo a margem dos outros colegas, mas com o objetivo do que era o melhor para o conjunto dos associados. Pois entendemos que a Funcef é de todos e que ninguém deve ser alijado ou preterido por ser do Novo Plano ou do Velho Plano.
As nossas discussões apontaram a chapa 3 como a mais representativa do conjunto dos associados justamente pela sua pluralidade. Embora tenhamos identificado algumas contradições, mas superadas, pois a contradição propicia um debate mais profundo. Uma melhor definição das estratégias.
Como sabemos, as chapas representam vertentes do movimento. E a chapa “dos associados” contemplava um espectro diversificado da visão do conjunto da categoria.
É evidente que temos divergências inclusive na composição da chapa três, afinal, pensamos diferente. Mas no âmbito dessas divergências soubemos expressar opiniões com parcimônia e maturidade.
Tínhamos ciência que a chapa um era uma forte concorrente pelos apoios obtidos e pela estrutura formada com as Associações e Fenae. E tenho comigo que dentre os membros da chapa um havia pessoas honradas e bem intencionadas. Mas como escrevi antes, nossas divergências são políticas. É uma questão de subserviência. De morosidade, de foco, de confronto. Enfim, de combatividade.
No entanto, o quadro final nos mostrou algumas agradáveis surpresas. Pois uma eleição não se esgota em si mesma. E sinaliza nos embates nessa nossa democracia.
O resultado final nos ativos é plausível considerar um empate técnico. E a derrota da chapa três foi fragorosa nos aposentados. Nos aposentados a chapa um teve, aproximadamente, quatro vezes mais votos que a chapa 3.
A chapa três venceu nos estados: AM; BA; ES; MA; MT; PE; RJ; RS e SE.
Considerando-se o empate técnico e essas vitórias podemos concluir que há uma rejeição muito grande com as atuais lideranças políticas no movimento na Caixa. Um descontentamento claro com as atuais forças que são ditas majoritárias. Há um profundo desejo de mudança. Ou seja, nos queremos mudança e notícias novas. A votação na chapa três diz que nós não queremos os mesmos fazendo as mesmas coisas sempre. Nós ansiamos por mudanças e novas maneiras de fazer política. Nós queremos o ponto e o contraponto.
Os avaliadores possuem um grupo na internet em que participam aproximadamente a metade dos avaliadores e aposentados. As notícias circulam com muita agilidade. Nós do Reg-Replan também inauguramos com agilidade nosso meio de comunicação. E esse fator, no meu entendimento, também favoreceu, e muito, os votos obtidos pela chapa 3. Então, se faz necessário que nós participemos do grupo criado no Yahoo. Desafogaremos nossa caixa postal na agência, não estaremos usando a estrutura da Caixa – se bem que não vejo problemas, pois estamos discutindo a própria CEF – e estaremos oportunizando a participação dos aposentados nas discussões. Assim, é imperativo que todos participem do grupo do Reg-Replan no Yahoo.
O linque abaixo...
http://br.groups.yahoo.com/group/OptantesREG_REPLAN/

Enfim, penso que esse grupo, que orbitou em torno da chapa 3, pode continuar debatendo os assuntos que interessam nossa categoria. Esse poderia evoluir para um grande fórum nacional de discussão permanente. Claro, se as forças componentes assim desejarem. Mas seria muito interessante esse fórum. O clube dos descontentes.
Não precisamos nos reunir num ginásio em um grande encontro com crachás e claque, basta utilizarmos as ferramentas que dispomos hoje em dia. A internet é menos trabalhosa, mais democrática, de baixo custo e não dói.
Bom, meus caros, essa foi a minha contribuição.

Santa Maria – RS, maio de 2010.

Quem tem medo do PCO?


A análise política não precisa ser minuciosa para percebermos que a direita não está presente na eleição para presidente em 2010.
A elite brasileira é extremamente conservadora e a classe dirigente está enraizada em dogmas tradicionais. Entretanto, essa elite não conseguiu se organizar com uma candidatura viável nos moldes como participou em outras eleições. Alguém ainda lembra do “Juntos chegaremos lá” ou do caçador de marajás?
Por que a direita está fora da eleição para presidente do Brasil?
A classe dominante, que sempre esteve presente compondo historicamente com partidos conservadores e liberais, está com representação nas principais candidaturas. Os conservadores, representados pelos partidos, DEM, PP, fagulhas do PMDB, partidos nanicos poucos representativos politicamente e figuras como Sarney, Quercia, Maluf e outros de relativa importância, estão apoiando uma das principais candidaturas. No afã de buscar apoios às coligações, os candidatos a presidente esquecem facilmente a trajetória política dessa turma sempre enraizada no poder, mas com um balaio de votos e ávidas por cargos.
Após a construção das candidaturas a presidente (vou colocar na ordem da última pesquisa) Dilma, Serra e Marina, percebemos que a direita está ausente enquanto proposta com um candidato que a represente nos seus fundamentos ideológicos. Essas três candidaturas têm em seu currículo uma trajetória de esquerda. Militantes forjados na luta contra a ditadura. São candidaturas que não estão colocadas à direita do tradicional espectro da ideologia. No entanto, a direita aparece alojada nas candidaturas de Serra, Dilma e Marina. A direita estará representada em qualquer governo com reais possibilidades de vitória. E todos têm uma desculpa “plausível” para explicar esses apoios: governabilidade, estabilidade econômica e que deve-se olhar para frente. Bueno!
A coisa está tão esculhambada ideologicamente que até o presidente da FIESP virou socialista. Ou seja, a direita consegue “camuflar-se” confortavelmente na esquerda. E não é um caso isolado. Eu gostaria muito de saber qual o modelo de socialismo desse senhor?
Até a eleição de Lula, o PT era um partido puro. Não estava infectado com essas idiossincrasias da política. A eleição de Lula é a primeira antinomia política eleitoral petista e que deverá ser evidenciada, ainda mais, nos pleitos futuros se o pragmatismo eleitoral ainda for o princípio das coligações.
Lá no passado o PT estava incólume a qualquer vício da política tradicional. Ostentava uma pureza ideológica. Talvez sejam os novos ventos da política mundial. Mas o fato é que ainda nessa eleição o PT fornece aos adversários a sua maior virtude, a coerência e a tradição de lutas no campo da esquerda transformadora. O PT faz a mesma política que todos os demais partidos fizeram e continuam fazendo. Decisões de cúpula, acordos pragmáticos e ilações estapafúrdias para explicar o inexplicável na digestão de intragáveis companhias.
Para militância aguerrida, aquela que nasceu junto com o partido; a que sempre colocou a bandeira no ombro e foi para rua desfraldá-la sem medo; a militância que olha para o vermelho e o amarelo e diz que este é o futuro do Brasil; a que acredita ser o PT o veículo que mudará a cara deste país, um partido que faz história e é sujeito dela; essa militância está silenciosa, porque é esperançosa e ainda acredita que o PT é o mesmo PT que ela ajudou a fundar e a construir no dia a dia há 30 anos.
Uma militância que quando bota o pé na estrada, vira uma eleição em cinco dias. Porto Alegre conhece bem. Certamente, essas eleições, não serão empolgantes e apaixonadas como há três ou quatro pleitos. Ninguém mais poderá gritar nos comícios e carreatas “El, el, el, militância de aluguel”.
O PT não é mais o mesmo. O presente do PT ficará ao reboque do seu olhar para o futuro. E o futuro do PT, a contradição de seu passado.
Se considerarmos o quase infalível faro pelo poder que o DEM tem, seus representantes estarão em alguma “siglinha” na composição do próximo governo.
A direita não está preocupada com Serra, pois, se eleito, continuará com o mesmo tranco social democrata e com o mesmo trote na economia. E pelos mesmos motivos também não está preocupada com Dilma. Como diz o ditado “o andar da carreta acomoda as melancias”. E, certamente, a direita conseguirá conviver com alguns traumas de consciência, mas no poder.
Coerência mesmo está nas candidaturas do PSOL, PCO e do PSTU. Entretanto, esses não são citados, não são convidados para os debates e estão no rodapé das pesquisas eleitorais. Os candidatos se esgoelam nos poucos segundos do horário eleitoral. Sem pragmatismo e sem coligações, estão lá na ponta esquerda do pleito, ninguém acredita, aposta ou vê. Até achamos pífio, fora de moda e pré-muro de Berlin. Mas afinal, quem está preocupado com o PCO e com Zé Maria?

terça-feira, 4 de maio de 2010

Aos que dizem sim e aos que querem dizer não

Nesse final de campanha a troca de emails deve intensificada. E é bem provável que cairemos em ataques pessoais e a velha divisão entre bons e maus. O que não é recomendável para o debate que queremos sobre a Funcef. E por tabela ao movimento da categoria como um todo.
Recebi um email listando os saldados da chapa 3. Evidente que tem saldados na chapa 3, e é bom que assim seja, pluraliza o debate a ser travado dentro da chapa e, por consequência, na Funcef. O que me preocupa é a falta de representação de membros de algum plano em alguma chapa. Tenho convicção que, no caso específico do Reg-Replan, seria interessante uma representação na Funcef. Nós que estamos no Reg-Replan, não somos contra quem está no Novo Plano. Quero acreditar que a decisão sobre o saldamento tenha sido consciente. Mas queremos ser representados na direção por quem esteja no Reg-Replan. Simples.
Sobre o colega Emanoel. Não o conheço sei alguma coisa sobre sua atuação política. A qual tenho divergências. Nós devemos conviver com as divergências, com o contraditório e sem ressentimentos. Sempre gostei de emitir minha opinião e ler a dos outros. Até para modificar a minha, se for o caso. E, em todas as chapas, há contradições e idiossincrasias. Mas o que indigna é que sendo ele – Emanoel – participante do tal GT e membro do conselho, só agora aparecem os possíveis, improváveis ou prováveis fracassos administrativos – que devem ser explicados – na Apcef-BA. A questão é: quando Emanoel estava “do nosso lado” era bom, agora não presta.
Eu, particularmente, já sofri esse tipo de ataque. Se está junto é companheiro, se pensa diferente torna-se demonizado.
Reflitamos, todos nós conhecemos o histórico da Art-ban no movimento. Por exemplo. No ano passado quando o BB levou 3% a mais no aumento salarial. Qual foi a postura da companheirada da Art-Ban que tem maioria absoluta na Contraf? Um silêncio de causar dó. Afirmei antes e afirmo novamente. Minhas divergências só apenas políticas. Eu penso diferente com respeito ao sindicalismo que hoje é protagonizado pela Articulação. A Art-Ban vem dando as rédeas do movimento e são completamente subservientes ao governo federal. Há necessidade urgente de um contraponto nesse movimento. Chega de sempre dizer sim. Acho que é o momento de dizer não.
Nessa atual conjuntura vejo a chapa três como a mais representativa do conjunto de todos os beneficiários da Funcef.


Athos Ronaldo Miralha da Cunha
Santa Maria – RS


Deixo uma canção muito linda para reflexão.

“Sólo le pido a Dios”

http://www.youtube.com/watch?v=SIrot1Flczg&a=oXQ1lCiKjbw&playnext_from=ML

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Eyjafjallajoekull


Após um longo tempo de inatividade o vulcão Eyjafjallajeokull resolveu assombrar a Europa. Uma enorme nuvem de cinzas vulcânicas era a causa dos transtornos para quem necessitasse embarcar em algum vôo no Velho Continente.
Em se tratando de algo que vem das profundezas da Terra, ficamos com a sensação de que a natureza está dando o troco. E, assim, sou acometido por uma dúvida: e se os Maias erraram as previsões em dois anos? E a coisa não será em dezembro de 2012.
As recentes catástrofes no Haiti, Chile e agora o despertar do Eyajfjallajoekull nos aproxima de algumas expressões que não estão no nosso cotidiano. Corpos magmáticos, placas tectônicas e crosta oceânica... e vamos nós em buscas de tais significados. Mas fico incomodado em saber que as placas tectônicas têm movimento relativo. E mais incomodado ainda por estar pisando em cima delas. Vou pensar duas vezes, nessas tais placas, antes de pular nas arquibancadas do Beira-Rio.
Para um expectador distante – e sem a mínima probabilidade de viajar para a França – as cinzas da Islândia não chegam a ser um problema. Diante dessa manifestação da natureza resta, apenas, a solidariedade com as pessoas que terão que ficar mais alguns dias em Londres, Lisboa ou Madri. Deve ser terrível passar o dia 16 de junho em Dublin, mas até a festa do Bloomsday as cinzas serão... cinzas.
Confesso que se estivesse em Paris eu seria um homem triste, mas muito triste mesmo, com a possibilidade de ficar mais uma semana por lá. Eu iria passear pelos cafés, Louvre ou nas vinícolas francesas, indignado por não poder voltar.
Eu tomei conhecimento do nome do dito cujo, lendo os jornais do dia em que Brasília comemorava seus 50 anos. O nome do bichano estava escondido no meio do texto “vulcão islandês Eyjafjallajokeull entrou na fase mais ativa”. Segundo Raul Maxwell, havia mais vogais no nome, mas foram consumidas pela erupção. Esse nome tem tudo a ver com vulcão seja ele inativo ou não. Mas, para mim, essa maneira aleatória de colocar vogais e consoantes é um xingamento.
Quando o juiz anular um golaço do Walter, em completo impedimento, pode ter certeza, chamarei o juiz de Eyjafjallojaekull. Quando soltaram o ex-governador do Distrito Federal eu fiquei sem palavras. Boquiaberto porque não existe mais expressões para demonstrarmos nossa indignação com os fichas sujas. O vulcão da Islândia foi a salvação. De agora em diante quando um fulano aparecer nos jornais colocando dinheiro nas cuecas ou dançando a valsa da impunidade, todos estaremos convocados para encher as praças de nossas cidades e gritar a pleno pulmões: seus filhos da Eyjafjllajoekull!
Para encerrar mais duas palavrinhas. Primeiro, devo dizer que cada vez que escrevi o nome do vulcão escrevi diferente. Se alguém percebeu, parabenizo pela atenta leitura. E, por fim, como se pronuncia esse troço? Eyjafjallajoekull!

terça-feira, 20 de abril de 2010

Matungo torto e os cavalos do comissário

Votar sempre é bom. A democracia evolui a cada eleição e o eleitor aprimora o voto. Diante da urna: a hora da verdade... ou do troco.
Então, vamos votar massiçamente na eleição da Funcef que ocorrerá entre os dias 24 de abril a 06 de maio. A participação fará a diferença. Vamos eleger nossos representantes na Direção da Funcef e membros do conselho deliberativo e fiscal.
Essa eleição se reveste de suma importância, pois também conta com o componente pós saldamento. É uma oportunidade única de reabrirmos esse debate que sempre foi unilateral. Poucos sindicatos no Brasil, para não dizer três ou quatro, fizeram o debate do saldamento ouvindo os dois lados. Fazendo ponto e contraponto. Os demais foram obedientes ao comissariado.
Numa eleição, como essa, exerceremos nossa participação política. É importante sabermos o rumo que desejamos para a nossa Funcef. E a construção do voto se dará pela atenta leitura dos documentos das chapas com as propostas, programas e feitos. Todas como legítimas representantes dos participantes da Funcef. E por isso temos que avaliar bem o nosso voto. Quem são, realmente, os nossos representantes?
Em outros tempos votaríamos de olhos fechados nos tais representantes legítimos da categoria. A luta era ideológica e o horizonte definido. Nosso envolvimento era unicamente político. Éramos ávidos por mudanças numa visão sonhadora de mundo. Éramos utópicos e felizes na construção desse horizonte. Até esquecíamos que quando aposentados o salário não teria ideologia. Salário não é de esquerda ou de direita... tem que nos sustentar minimamente com dignidade.
O novo nessa história toda foi o Novo Plano, com a adesão de uma considerável parcela do movimento sindical na sua campanha. Assim, faz parte dessa eleição um caráter pragmático. Como acreditar – por exemplo, nós que estamos no Reg/Replan – em colegas que foram amplamente favoráveis a migração e sequer fizeram debates em suas bases ouvindo os dois lados? Eles estarão na defesa dos interesses dos não-saldados? Como acreditar em colegas que foram subservientes ao assédio moral pró-migração exercido Brasil afora pela Caixa e Funcef? Teriam esses candidatos a representantes dos beneficiários afinco na intervenção em favor de alguma reivindicação dos não-saldados? Aqui eu aciono o meu “desconfiômetro”. Tenho que confessar. Eu sou desconfiado – mais desconfiado que matungo torto – então, nesse pleito tenho que ser político, pois temos que votar no conjunto das propostas que contemplem a maneira de como vejo o mundo, mas, nesse caso especifico, também teremos que ser pragmáticos.
Estou no Reg/Replan e vejo que esses participantes têm o direito de ter uma representação junto à direção da Funcef. Um candidato que está no Reg/Replan será, sim, um legítimo representante dessa considerável parcela de associados. Afinal, é comum no sindicalismo a tal proporcionalidade.
Mas o motivo desse texto não é um chamamento ao voto em candidatos do Reg/Replan. É, também, uma avaliação política do nosso movimento.
Nas últimas negociações salariais ficamos submetidos, ou ao reboque, da Articulação Bancária. E muitas vezes fomos para as assembléias denunciar a subserviência ao governo e a direção da Caixa no que tange ao acordo coletivo. É com tristeza que percebemos nas reuniões verdadeiros cavalos do comissário na mesa de negociação. Temos ciência que sempre nossas negociações foram rebaixadas. Com índices abaixo do que esperávamos. Muito aquém do tamanho da nossa greve. Quantas vezes aqui no RS nós aprovamos, em Congresso Estadual, um índice e no encontro nacional o percentual aprovado era abaixo. Inclusive com os votos dos colegas da Artban gaúcha. E essa incoerência era motivo de muita discussão e revolta. Por questões de divergências políticas, estratégias de campanha e atrelamento ao governo eu não me sinto representado por esse campo do movimento sindical. Assim, o voto na chapa 1 – Movimento pela Funcef – para mim, está descartado. Reafirmo: são divergências políticas com a orientação e prática sindical da Articulação bancária.
Já faz tempo que rebaixamos nosso horizonte utópico, mas não devemos rebaixar nosso trópico no horizonte e nossos tópicos nos acordos. Há alguns anos a esperança venceu o medo. Hoje, quem venceu quem? Ou será que somos nós os derrotados por não termos mais a picardia da audácia. Até quando vamos dizer sim, quando eu quero dizer não? Eu quero reinventar aquela velha opinião formada sobre tudo. Eu não posso ficar mudo diante do azul da imensidão. Infelizmente eu não me iludo com o vermelho da paixão, com o verde da esperança mesmo sabendo que a liberdade é azul. Nós precisamos uma planura incandescente de verdades e transparência. Nesse momento repudio o silêncio e a pena que se verga. A caneta escravizada. O teclado omisso. Eu quero uma canção baguala e um potro sem dono cortando o ventre da pampa gaucha. Me causa desconforto o líquido e certo, eu quero um sólido coberto nem que para isso tudo se desmanche no ar. Eu quero ficar ansioso porque sei que o sonho está ao alcance de minha mão. Eu não quero a indecisão porque essa indecisão protela a vitória.
Abraços e bom voto a todos.

Santa Maria, abril de 2010

A propósito, voto na chapa 3.

sexta-feira, 19 de março de 2010

A invasão do Uruguai


O dia 18 de março de 2010 ficará marcado na memória dos torcedores do Internacional.
Na tarde de uma quinta-feira ensolarada o país vizinho sofreu um tsunami colorado. A invasão vermelha foi protagonizada num estádio castelhano. Não eram Colorados, Blancos ou Amplios, mas, fervorosos e apaixonados torcedores colorados do Internacional de Porto Alegre. Evidentemente, com a devida cota de castelhanos na escalação. Provavelmente, “nunca na história desse país” uma equipe de futebol foi aclamada com a maioria dos torcedores em um estádio fora do Brasil. Podemos afirmar que o Inter estava jogando em casa.
Pela tarde a calle Sarandi ficou repleta de colorados. Todos tiveram a mesma idéia: antecipar a ida e fazer umas comprinhas nos free shops de Rivera. Claro que todas as compras estavam dentro da cota da receita. Lógico.
O Uruguai ainda vive o rescaldo da eleição de Pepe Mujica. Muitas placas e banners nas ruas. O comitê de Pepe ainda estava com as portas abertas. Então, gritei para o atendente que se votasse no Uruguai teria votado em Pepe... me respondeu com um sinal de positivo.
Logo adiante, na mesma, quadra uma camioneta com a estampa de Lara andava despretensiosa – em campanha no Uruguai? – pelas ruas de Rivera. É claro, mais um esfuziante torcedor do Inter. Campanha política, e eu pensava que ele era candidato ao governo gaúcho.
Na entrada do estádio mais uma surpresa. Partidários do PTB distribuindo panfletos de Luiz Carlos Busato e Gaúcho da Fronteira. Imagino que se no Brasil ainda não pode fazer campanha, eles foram fazer no Uruguai. Deve ser pelos votos dos doble chapas.
Voltemos ao que interessa no momento que é a alegria do futebol. Foram praticamente 25 mil colorados para assistir Inter e Cerro do Uruguai pela Copa Libertadores no estádio Atílio Paiva Oliveira, aliás, um belo estádio.
Um mar vermelho nas arquibancadas castelhanas. Na minha frente no setor da Tribuna Itália – geral superior – um casal de uruguaios com um filho. O guri com boné e camiseta e a mulher enrolada na bandeira do Inter. E eu só entendia o pero que si, pero que no. Penso que era a primeira vez que assistiam a um jogo do Internacional. Brinquei com o castelhaninho se ele não era torcedor o Peñarol. A resposta foi de pronto. Nós torcemos para o Nacional e para o Internacional. A mãe do guri acompanhava a ola com a máquina digital. Os torcedores do Cerro não participaram da brincadeira e em cada volta da ola levavam uma estrondosa vaia. O castelhano colorado sorria como uma criança.
Uma criança uruguaia que torce para o Inter, mãe e pai empolgados na arquibancada. E uma enorme faixa que dizia “Rivera está com o Internacional” nos faz pensar sobre o Mercosul que na política não avança. E a conclusão é obvia: para a paixão do futebol não existe mais fronteiras e nem limites. Os alambrados ficaram no passado. Fazendo jus a sua história e ao nome que carrega, o Internacional ultrapassou a fronteiras do Rio Grande do Sul como o time mais castelhano do Brasil. Uma equipe internacional.
No retorno, como tenho o salvo-conduto de Pepe, não foi preciso prestar contas na alfândega.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Saudades da revolução

Yo tengo tantos hermanos
Que no los puedo contar
Y una hermana muy hermosa
Que se llama libertad
Los Hermanos – Athaualpa Yupanqui


Aprendemos a admirar Cuba porque uma gurizada no final da década de 50 resolveu derrubar um ditador e acabar com as mazelas de um povo. Uma turma que ousou enfrentar um tirano. E todos aqueles que desejavam um mundo melhor torciam pelo novo regime liderado por Fidel, Che, Sinfuegos e tantos outros.
Tomávamos cuba libre para comemorarmos os vitoriosos de Sierra Maestra. Enquanto Cuba se tornava um país voltado para às causas sociais, pelo mundo afora surgiram algumas ditaduras sanguinárias. Na America Latina, Brasil, Uruguai, Argentina, Chile e Paraguai houve regimes de exceção que torturavam e assassinavam dissidentes. Muitos heróis guerrilheiros do Brasil deram a própria vida em nome da liberdade. Temos diversos exemplos, mas Carlos Lamarca foi grande porque “ousar, vencer” era seu lema. Carlos Marighela também tombou em nome da revolução.
Eu faço parte da geração imediatamente posterior à geração que pegou em armas. Organizou guerrilha, foi presa, torturada e se não está em alguma cova clandestina, sofreu com o cárcere – como preso de consciência – e foi banida do país. A minha turma fez a revolução nas mesas do antigo bar “Em Cena”, que ficava na esquina da avenida presidente Vargas com a rua Floriano Peixoto. E só não conseguimos porque o bar fechou.
Todos nós conhecemos algum amigo ou companheiro que foi preso político ou que ainda chora o desaparecimento de um ente querido. Afinal, por quem choram “las locas de la plaza de mayo?”
Um amigo falou que não conseguia falar mal de Cuba. Eu também não consigo. Fidel tem cara de vovô e Raul de um simpático tio. Mas a notícia de presos de consciência na querida ilha de Fidel, nos constrange. E diante da morte de um dissidente, nosso silêncio não pode ser transformado em uma luta armada às avessas. Lula fez greve de fome e nos preocupava, mas aumentava nossa admiração pelo futuro presidente. Quantas greves de fome fez o senador Paulo Paim pela causa dos aposentados? E foi o primeiro metalúrgico gaúcho assumir uma cadeira no senado.
Guillermo Fariñas, outro dissidente político filho de revolucionários, sendo que seu pai lutou com Che no Congo, está em greve de fome pela liberdade de 26 presos de consciência. Guillermo Fariñas sintetizou a atual conjuntura cubana na seguinte frase: há momentos na história dos países em que precisa haver mártires...
Onde estão os revolucionários de hoje? No Brasil é mais chique ser ex- revolucionário e trabalhar num gabinete refrigerado. E, em alguns casos, com uma gorda conta no banco.
O que é ser revolucionário numa Cuba que tem mais de uma centena de presos políticos? Cuba precisa avançar na revolução. E isso compreende uma palavrinha que nunca deve sair de moda, democracia.
Cuba tem vários avanços sociais, mas precisa se renovar politicamente e nós que somos “amigos” de Fidel não devemos contribuir com nosso silêncio. Nosso silêncio é uma afronta a todos os revolucionários que doaram a vida em nome da liberdade.
Hasta la vista, companheiro!

Linque para a música Los hermanos

quarta-feira, 10 de março de 2010

A cova rasa de Getulio

twitter.com@athosronaldo

Chico Chimango recebeu a notícia do compadre Aparício. Ambos pitando, ao pé do braseiro, lá no fundo de um perdido rincão. Aparício falou, emocionado, enquanto acendia o palheiro numa brasa.
– Compadre Chico, os homens da prefeitura levaram o Doutor Getulio para o meio da praça.
– Não me diga...
– Botaram o velho numa cova rasa a tascaram um lenço colorado. Ta lá pra todo mundo ver, no meio da praça em São Borja. E agora chamam a cova de mausoléu.
Chico Chimango não acreditava no que estava ouvindo. Sempre rezava no túmulo de Getulio por ocasião das suas visitas a Tia Maroca nas proximidades do cemitério. O jazigo perpétuo dos Vargas fica bem na entrada do cemitério Jardim da Paz. E para não causar ciumeira nos falecidos também fazia umas preces para Jango e Brizola.
– E digo mais Chico, contrataram para fazer o túmulo um cola-fina lá do Rio de Janeiro, um tal de Neimar.
– Mas isso é uma sem-vergonhice. Aparício, São Borja não tem pedreiro?
Chico deu mais uma pitada, apagou o palheiro com o taco da bota e sentenciou.
– Hoje eu não vou porque tá se armando um temporal lá pros lados dos castelhanos – e temporal vindo dos castelhanos é coisa feia –, mas amanhã vou falar com o prefeito. Vou acabar com essa pouca vergonha.
Chico Chimango chegou na cidade a trote. Amarrou o cavalo num poste em frente ao Palácio João Goulart e foi em direção ao centro da praça. Olhou desconfiado. Realmente, havia algo como uma cova, bem rasinha, uma caixa branca com um lenço maragato, meio estranho aquele vermelho, e uma aba que dava a volta por cima da caixa branca. Perguntou para um passante se era verdade que o Getulio estava enterrado ali. A resposta foi afirmativa. Logo em seguida Chico puxou o facão para um taura que caminhava batendo esporas por cima da cova do Doutor Getulio. E se formou um alvoroço na praça. O ferro-branco reluziu, mas logo a turma do deixa disso acabou com a reboliço.
O prefeito, amigo de longa data de Chico, teve dificuldade para explicar que o maior arquiteto do mundo fez o monumento para homenagear o maior presidente do Brasil. E que aquele vermelho simbolizava o sangue do velho Pai dos Pobres.
– Mas prefeito, aquela cova é muito rasa. O povo passa por cima... – falou emocionado.
Assim, por causa do drama sofrido por Chico Chimango está prevista uma pequena reforma no monumento para deixar de ser uma “cova rasa”.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Primeiro dos Sete Povos - Relatos de viagem

twitter.com/athosronaldo

São Borja é uma cidade singular. Conheci o primeiro dos sete povos nesses primeiros dias de março. É bonita e hospitaleira.
O que mais chama a atenção, para quem é “forasteiro” são as cartas testamentos. Na praça tem duas: uma junto a estátua de Getulio Vargas e outra no mausoléu de Vargas, aquele projetado por Niemayer. Em frente a praça tem o palácio João Goulart que é o prédio da prefeitura. Em frente, os bustos de Jango e Vargas e mais uma carta testamento. O vigilante afirmou que no museu de Vargas tem outra. Total: quatro cartas em São Borja.
Pode parecer um exagero, mas acho que os administradores de São Borja estão corretos, uma cidade que doou dois de seus filhos para a presidência da república tem que ter essa idolatria. A boca pequena corre na cidade que são quatro presidentes nascidos lá. Um que foi interino e outro, um castelhano, que foi presidente do Paraguai e que dizem nasceu nos campos de São Borja.
Visitei os museus de Vargas e de Jango. No de Jango bate-se fotos a vontade, no de Vargas é proibido. Caminhando pelos aposentos – que foi a casa que Vargas morou – toda vez que falava em Getulio a professora me corrigia com um “Doutor Getulio”. Comentei algo sobre o Brizola, então ela disse que ali só fala sobre o “Doutor Getulio”. Tudo bem. Pensei em puxar um assunto sobre o Estado Novo, mas desisti, poderia parecer provocação.
O túmulo dos Vargas é modesto, o de Jango – que também estão Brizola e Neuza – é pomposo, mas o que me chamou atenção foi o túmulo de Aparício Mariense da Silva... imponente.
Enfim, para quem gosta de um pouco de história, São Borja é um belo passeio. A noite não deixe de visitar o cais do porto com vários barzinhos e provar o peixe frito. Um lugar aprazível à beira do rio Uruguai. Depois atravessar a ponte o torrar uma grana no cassino em Santo Tomé.
Ah! A avenida que se percorre para entrar na cidade chama-se “Avenida Leonel Brizola – notável estadista e político”. Precisa dizer mais?

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Na companhia da Dilma


A paisagem é magnífica e a tarde está ensolarada. O sol forte não é amenizado com o vento frio que sopra do mar. Então, prefiro a sombra de uma árvore e o horizonte azul do oceano.
O pessoal todo na água, e eu na companhia da Dilma. Eu em minha cadeira de praia e ela na capa da revista. Estava lendo a reportagem sobre a ministra-candidata e fazendo minhas elucubrações políticas, embora ao alcance de meus olhos a areia, praia e mulheres bronzeadas. Mas tudo bem, cada um com suas manias. Afinal, nós estamos em ano de eleições e eu na companhia... Dela.
Desacorçoado com alguns políticos que ainda não entenderam o que é coisa pública e acabaram na privada, meu pensamento viajava pelos arredores dos verdes montes, e, temos de convir, que dentre os atuais postulantes ao Palácio do Planalto nenhum está envolvido em falcatruas.
O vento esquentava a caipirinha de vodca e esfriava o meu chimarrão. E pensar que há poucos dias o sol brilhava a 40º e sonhávamos todos com uma chuvinha. E em qualquer canto do Rio Grande estávamos destilando suor.
Entre uma página e outra das páginas da Dilma, uma espiadela na praia. Não é um ventinho qualquer que espantaria as donas das pernas torneadas e bronzeadas de um sensual desfile com cabelos esvoaçantes pela praia. Foi num desses momentos de olhadela que vi por cima dos óculos de grau quatro belas morenas. Todas elas vindo em minha direção. Aquilo era um pelotão de fuzilamento de corações. Esbeltas, morenas, bronzeadas, cabelos longos soltos ao vento e todas de maiôs pretos. Num instante pensei que estava em outra dimensão e entrando no paraíso, mas logo percebi que era real, pois servi o meu chimarrão na caipirinha de vodca e a água extravasou as bordas do copo e, aparentemente, me acordando de um sonho. As quatro beldades estavam em minha volta e eu ainda não estava refeito do susto. Por algum motivo pensei em gritar “Diiiiiilma!”. Mas reprimi meu grito de guerra, eu me transformaria num deselegante Fred Flintstone de quinta categoria.
Uma das beldades me ofertou o último lançamento de um desodorante. Um presentinho da Axe. E se foram distribuindo brindes e beleza para os demais tarados da praia. E eu continuei na companhia da Dilma, eu na cadeira de praia e ela na capa da revista.

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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Lula e a Lei de Murphy

Um dos pontos fortes do governo Lula é a sua política internacional, possivelmente a melhor desde os tempos de D. Pedro II.
E as andanças de Lula, mundo afora, começou com a visita a Davos no primeiro ano de seu governo. Aqui por essas bandas foi instaurada uma grande polêmica: um presidente oriundo das camadas mais pobres do país deveria ir ou não visitar a “burguesia mundial”? O presidente foi e não falou como um coadjuvante na festa dos milionários. Colocou na pauta dos ricos a vida abaixo da linha do Equador. E nós achamos o máximo.
O Fórum social Mundial foi idealizado para polarizar com o Fórum de Davos. O presidente Lula foi ovacionado em porto Alegre e aplaudido em Davos, isso lá em 2003. No último fórum econômico Lula recebeu o prêmio de cidadão global. Como sou muito desconfiado, eu não sei se esse afago é bom ou ruim.
A partir de então, durante todo o seu governo, Lula viajou. E foi muito criticado. Mas um presidente tem que viajar, abrir novos caminhos políticos e econômicos para o país. Novos parceiros comerciais. Essas viagens são importantes embora os olhos de águia dos opositores de todo momento e a qualquer hora.
Diante dos mais variados tapetes vermelhos do planeta, o presidente sempre teve uma postura de estadista. Qual líder criticaria a ONU cobrando uma postura sobre as Ilhas Malvinas? Somente Lula poderia fazer e fez emitindo sua opinião – e de todos os brasileiros – de que as Malvinas deveriam ser da Argentina. Nesse ponto o presidente foi perfeito e merece aplauso.
Mas sempre há um senão. E o do Lula levou quase oito anos: os presos políticos da ilha dos Castro ou presos de consciência, conforme a Anistia Internacional.
No mesmo dia em que Lula desembarca em Cuba para visitar o porto de Mariel, um dos presos políticos – Orlando Zapata – morre após 85 dias de greve de fome. Que azar do companheiro. Se existe algum embasamento científico na Lei de Murphy, ficou quase comprovada.
Como explicar a morte de um preso político? Assim, o silêncio foi constrangedor.
Da mesma forma que há algumas semanas Honduras foi impedida de entrar no novo bloco de nações da América – sem Canadá e EUA – pois o atual governo hondurenho deveria anistiar Manuel Zelaya. Sobre os prisioneiros políticos de Cuba nada foi comentado.
A Lei de Murphy colocou Lula em uma situação incomoda, mas o presidente deveria ter falado para os companheiros Fidel e Raul que o mundo mudou. Prisioneiros políticos em greve de fome mancham a história de um governo. Todos nós aprendemos a admirar Cuba pela trajetória de seu povo, pelos avanços sociais e pelo sofrimento em virtude o embargo Norte Americano. Mas a admiração se esgota diante da tirania. O que temos hoje em Cuba? A impressão que se tem é de que o governo está caindo de maduro.
Se na década de 60 tomávamos Cuba Libre para comemorarmos os revolucionários da Ilha. Hoje, devemos retomar Cuba Libre para reivindicarmos a liberdade dos presos de consciência da Ilha de Fidel.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A comenda de lúcifer

twitter.com/athosronaldo

Há dez anos o Fórum Social Mundial foi pensado para discutir a possibilidade de um outro mundo e, por tabela, os desafios da esquerda diante das novas realidades econômicas e políticas. Mas também foi a criação de um movimento para fazer contraponto ao Fórum Econômico de Davos na Suíça.
Naquela oportunidade foi agendado um encontro, via satélite, entre representantes de Porto Alegre e Davos. Ficou evidente para quem estava na capital gaúcha que a reunião foi para inglês e todos os incautos sonhadores verem. Nada de prático, conversa fiada. Mas o pessoal do bem não gostou nada do que o pessoal do mal da Europa estava fazendo e dizendo. Aliás, para a turma que estava às margens do Guaíba o pessoal de Davos personificava o demônio. Em Davos reuniam-se a elite conservadora e reacionária. Milionários que só pensam em cifras. Porto Alegre era um coração que pulsava em nome dos oprimidos.
Em 2003 houve uma grande polêmica. Lula, após passar em Porto Alegre deveria ir ou não ao fórum dos ricaços na Europa? No antro do capitalismo mundial. Alguns influentes pensadores queriam que Lula não fosse – um trabalhador não deveria frequentar as rodas e banquetes da burguesia – outros achavam que Lula deveria ir e dizer “poucas e boas” para os detentores do poderio econômico. Instaurada a polêmica, pouco adiantou a farta argumentação dos fervorosos e acalorados debatedores em uma quentíssima Porto Alegre de janeiro, pois o aclamado presidente foi a Davos. Não disse as poucas e boas, não da maneira que desejavam os exaltados participantes da esquerda do FSM.
Os tempos mudam. Lula virou “o cara” e transita com a maior desenvoltura pelos mais variados salões da elite mundial. Numa mesma semana Lula pode levantar os braços entre Chávez e Evo e apertar a mão de Obama.
O Fórum Econômico Mundial ofertou a Lula o prêmio de Estadista Global. Talvez seja possível instaurarmos mais uma polêmica, pois é de polêmica que vivemos e, assim, teremos motivos para mais uns efusivos e intermináveis debates. Lula deve ou não receber essa comenda? Os multimilionários, os desnaturados e diabólicos representantes dos endinheirados do planeta não estariam cooptando nosso presidente. Esses mimos não fazem parte de uma estratégia de cooptação?
Afinal, Lula deve ou não receber a comenda de lúcifer?

sábado, 16 de janeiro de 2010

Onde estão as nossas loucas?


Não faz muito tempo e estão ao alcance de nossa memória, os anos de chumbo da América Latina. Ainda podemos lembrar nomes de tiranos como Augusto Pinochet, Alfredo Stroessner, Jorge Rafael Videla, Juan Maria Bordaberry, os generais ditadores do Brasil e tantos outros. Opondo-se às ditaduras tivemos as mais variadas formas de luta: a arte, a caneta, a tinta, o canto e a luta armada. O enfretamento era desigual. Qualquer palavrinha na música ou peça de teatro que denotasse desconfiança o censor carimbava “censurado”. “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta” era a resposta. Foram tantos os sofrimentos e lutas que ainda nos emocionamos com Mercedes Sosa e com os filmes de Costa Gravas.
Nesse período nebuloso de nossa história o Estado sequestrou, torturou e assassinou opositores ao regime. Em pleno século XXI, nos mais variados recantos desse “continente americano coração gosto de sal” pessoas choram a morte – ou desaparecimento – de familiares. As “locas da playa de maio” em Buenos Aires são um exemplo de perseverança.
No Brasil não é diferente, temos centenas de desaparecidos políticos a espera de respostas dos seus paradeiros. A terceira edição do Plano Nacional de Direitos Humanos parecia um caminho para esclarecer esse período de exceção. A Comissão da Verdade foi criada com o objetivo de apurar os crimes cometidos durante a ditadura militar. Mas militares incomodados com o texto se insurgiram. Inclusive, o “general” Jobim colocou o cargo à disposição do presidente Lula. Assim, a expressão “repressão política” foi banida do texto. E como por encanto, ou por decreto, a polêmica deve ser encerrada. Pergunte para alguém que teve choque nas genitálias para ver se a polêmica deva ser encerrada.
O que parece óbvio nessa história toda? Crimes cometidos durante a ditadura devem ser esclarecidos. O Brasil está refém dos carrascos que perambulam pelas cidades, ainda, libertos de seus crimes. Os relatos dos porões são estarrecedores. Quem não conhece um relato feito por um prisioneiro político. A polícia política praticou os mais horrendos atentados aos direitos humanos e esses arquivos continuam bem-guardados nos armários da repressão. Inalcançável a quem de direito, embora tenhamos no governo pessoas que sofreram essas agruras.
Os militares querem que sejam julgados os crimes cometidos pela guerrilha. Quais crimes? Os guerrilheiros já pagaram – e sem o devido julgamento – com a vida, com o exílio ou com os traumas psíquicos que os perseguem para o resto de seus dias. E os torturadores? São cinco os crimes cometidos: sequestro, cárcere privado, tortura, assassinato e ocultação de cadáver. Esses criminosos ainda estão incólumes. Quando o Brasil fará esse encontro com a história? Será que mais uma vez o pragmatismo eleitoral vencerá e os crimes dos ditadores continuarão ocultados pela nossa, eternamente incipiente, democracia. Faltam loucas no Brasil. Doidos varridos para “desvarrer” esses arquivos debaixo dos tapetes. Precisamos de “loucas do planalto central.”

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Eleições e internet (Íntimo do cara)

twitter.com/athosronaldo

Indiscutivelmente, a internet tornou-se uma potente ferramenta para os mais diversos afazeres. E essa conclusão é chover no molhado. A rede virtual é um caminho sem volta, salvo outra revolução tecnológica. Quem consegue ficar um dia sem acessar o computador? Impossível, nos tempos atuais.
O ano de 2010 será um divisor com relação a inserção da internet nas eleições. As campanhas entrarão, em definitivo, na Era digital, como nunca na história desse país (cic). Obama foi um candidato que usou intensamente o meio virtual. Barack Obama utiliza, diariamente, o twitter e tem três milhões de seguidores. No dia primeiro de janeiro de 2010 o presidente acorda, abre seu notebook e digita “Happy New Year!” e milhões de seguidores recebem o cumprimento, em sua residência, nos mais distantes recantos do planeta. Para isso, basta estar conectado. É a tecnologia aproximando as pessoas do homem mais poderoso do planeta. A gente até fica meio íntimo do cara que falou que o nosso presidente era o cara.
Não existe possibilidade de ficarmos alheios aos meios virtuais de relacionamento. É uma janela para o mundo. Viajamos sem sair de casa. Quem não estiver minimamente ao alcance da internet corre o risco de tornar-se um analfabeto digital. Um alienado em informática. Quem não estiver conectado no mundo virtual estará “a lo largo” dos acontecimentos. A informação é instantânea. Consta que em uma partida de basquete nos EUA o atleta saia da quadra colocava um post no twitter e voltava para o jogo. Notícia diretamente da fonte.
Então, nas próximas eleições o candidato que não estiver manejando os diversos meios digitais estará fora do circuito. Quem não estiver conectado estará navegando em águas jurássicas da eleição. E tem gente que reluta diante do teclado e da janelinha virtual.
Mas a internet também serve para ocultar a baixaria e a cafajestice. Os covardes se escondem atrás de uma máscara num ícone virtual para expandir seus preconceitos e safadezas. Circulam pela internet os mais variados emails denegrindo a imagem de alguma pessoa pública. E nesse período pré-eleitoral devemos ter cuidado ao repassar os emails detonando algum candidato. Sobre a militância da Dilma na luta contra a ditadura já recebi meia dúzia. O Fogaça tem um fake. O que é ainda pior.
Enfim, a internet é uma potente ferramenta para divulgação das propostas e posições de um candidato, bem como de qualquer cidadão que queira expor suas ideias em um blog.
No Twitter sigo alguns deputados e apenas o deputado Paulo Pimenta me segue. Mas logo os que não me seguem serão, peremptoriamente, bloqueados. Sou adepto do toma-la-da-cá virtual. Ponto.
Se eu tivesse três milhões de seguidores seria presidente dos EUA, com os meus sessenta seguidores o máximo que conseguirei é organizar uma cervejada em um boteco qualquer. Mas com a convicção de que continuo íntimo do cara.

Lula, o filho do Brasil

twitter.com/athosronaldo

Como nos últimos tempos virei um twitteiro de marca menor. Vivo raciocinando em 140 caracteres. E isso é um problema. Exercitamos o poder da síntese, mas quando desejamos algo mais, poderemos patinar além da vigésima sétima palavra.
Então, ao sair da sala de cinema após ter assistido “Lula, o filho do Brasil” formei a seguinte frase para resumir uma opinião, acerca do longa, no twitter “quem é apaixonado... chora. Quem admira... gosta. Quem odeia... torce o nariz. Gostei.”
Assim sendo, tenho que explicar porque gostei. Sou um admirador de Lula, pela sua trajetória, de onde veio e onde conseguiu chegar. Lula é uma exceção, um predestinado. Não sou um fã incondicional, reconheço os programas de inclusão social, bem como critico o que está ainda a desejar no seu governo. Lula e seu governo não são a perfeição absoluta. Mas isso é outra análise.
Voltando ao filme. É bom porque retrata a saga de uma família em busca de melhores dias. É bom porque tem plasticidade, tem história e não vemos uma ode ao cara... uma idolatria. Devemos lembrar que é baseado em fatos reais, assim, tem um jeitinho para tornar o sindicalista romântico. Lula não é indeciso. É certeiro. Sua conduta é ilibada. Nós gaúchos somos racionais, pouco emotivos e desconfiados. Talvez o filme não provoque sentimentos que nos induza a retribuir nas urnas no próximo pleito. Mas acredito que no nordeste do Brasil haverá mais soluços no cinema e o culto ao herói será mais visível.
Havia lido que a cena do Lula falando – com os devidos “s” – e a galera repetindo para os demais era muito bonita. E é. A outra cena era de que diante da morte de um “patrão” pelos trabalhadores em greve, a reação de Lula não foi bem a retratada. Isso foi o que li antes, mas um dado me chamou atenção. A filha Lurian, que nasceu após a morte da primeira esposa e antes do casamento com Marisa, não é contada. Então, nesse momento, o diretor peca por omissão. Existe uma filha. Existe um homem viúvo em busca de uma vida nova.
Como tenho um amigo que viu o filme e enxergou propaganda explícita para o PT, entrei no cinema com esse sentimento. Não foi o que vi. Acho que a película acaba no momento certo, “minutos” antes da fundação do Partido dos Trabalhadores. Ficou de bom tamanho. Caso contrário nem nós, os racionais e insensíveis, perdoaríamos. Fiquei com a impressão que uma versão de “Lula, o filho do Brasil” será mais fidedigna após a sua morte. E que seja daqui a 40 anos ou mais.
Acho que consegui dizer que gostei do filme. Ou não?