domingo, 8 de junho de 2014

F9 - Adeus Fernandão [*]




Athos Ronaldo Miralha da Cunha

“No mesmo dia em que a torcida do Internacional faz uma calorosa recepção para o melhor jogador da copa 2010 – o craque Diego Forlán – leio a notícia no jornal que outro craque – Gabriel García Márquez – não vai mais escrever.”
Esse é o primeiro parágrafo da crônica que escrevi no dia 07.07.2012, dia em que Forlán desembarcava em Porto Alegre e Gabo não escreveria mais. “Si se calla el escritor” é o título da crônica. Para quem gosta de futebol é colorado e amante dos livros foi um sábado marcado, dialeticamente, como triste e alegre.
Mas não imaginávamos que outro sábado poderia ser mais triste, mais lúgubre e mais silencioso em nossos corações. Os colorados estão arrasados em busca de muitos porquês. Se o dia 17.12.2006 foi o ápice de nossa alegria com o capitão levantando a taça de campeão do mundo, o dia 07.06.2014 foi o fundo de nossa tristeza.
Os jovens torcedores colorados de hoje veem em Fernandão com os mesmos olhos e com a mesma idolatria que nós olhávamos Figueroa, Falcão e Valdomiro e toda aquela máquina dos anos 70. Fernandão deixa um vazio nos gramados e um latifúndio de admiradores. Aquelas mãos que levantaram tantas taças deixam um troféu sólido que não se desmancha no ar. Faltará um grito de guerra no Beira-Rio. Sobrará a saudade de um craque que foi o mais importante nome da história do clube quando o Inter mais precisou de um líder.
Quando uma pessoa, no auge dos seus 36 anos, nos deixa, a nossa consternação é mais aguda. Pois essa conta não fecha na contabilidade da vida. Pessoas jovens não deveriam morrer assim sem um anúncio prévio. Sem uma carta de conforto... o abrupto nos deixa desatinados e sem rumo.
A partida de Fernandão é um pênalti com paradinha que nos desnorteia. E faz com que pulamos para o lado errado. É uma cobrança de escanteio que nos coloca para escanteio. É um gol mal anulado. Um impedimento que o juiz não marcou. Um jogo que perdemos nos minutos iniciais. É algo que nos recusamos a acreditar. Não achamos graça nesse destino que nos brinda com tristezas e melancolias.
O dia 07 de junho de 2014 foi muito triste. Um sábado triste como um domingo à tarde, quando o vento sopra nas folhas de um cinamomo, na solidão da pampa gaúcha. Com licença que agora vou tomar um mate solito. Só chimarrão pode confortar a inquietação dos colorados. Sem mais... agora só silêncios. 


[*] 3º lugar no VII Concurso de Contos, Crônicas, Poesias e Histórias do Inter 2014 (FECI) – Categoria Histórias do Inter.

3 comentários:

Elenara Castro Teixeira disse...

Queimou-me o corpo todo ao impacto de tal notícia, abalada ante a surpresa dessa tragédia...
Somente as lembranças boas dele correndo com aqueles cabelos negros ao vento, braços erguidos feito guerreiro vitorioso, é que faz essa saudade ser menos aguda...
Vai na PAZ e faz no céu a alegria da galera...Pinte também de vermelho esse vasto céu anil...

Unknown disse...

O amanhecer desse sabado com a triste noticia da morte do ETERNO CAPITAO FERNANDÃO, deixa a Nação colorada, orfã do seu mairo idolo, comandante dos ultimos tempos, na verdade de toda a historia do INTER.

Regina Schaurich disse...

A tristeza que nos inunda o coração só poderia ser sanada se o entendimento que ídolos e pessoas integras como foi Fernandão tivesse uma explicação lógica. Como isso é impossível resolvo me conformar com uma explicação que assimilei como balsamo durante a missa hoje pela manhã. "Deus precisou de um capitão no Céu ... escolheu o melhor que poderia ter".