sábado, 26 de julho de 2014

O Guarda-costas de Fidel




Athos Ronaldo Miralha da Cunha

O título do livro promete “A vida secreta de Fidel” e o subtítulo promete mais ainda “As revelações de seu guarda-costas pessoal”.
Juan Reinaldo Sánchez escreve um livro revelador. Nos conta sobre a vida íntima de um dos mais influentes e instigantes personagens do século XX. Uma testemunha ocular da história. O autor frequentou o dia a dia de Fidel Castro durante mais de 17 anos, pois era responsável direto por sua segurança.
El jefe – como Fidel é tratado – é obcecado por segurança, com um medo terrível de ser assassinado, centralizador e com um pensamento militar por excelência. Queria propagar a revolução pelo mundo e passaram pelos seus conchavos várias tentativas. Mas uma vitoriosa: Nicarágua com os irmãos Ortega. Fidel foi capaz de comandar uma operação de guerra na África do Sul mantendo-se na Ilha. A 10 mil quilômetros de distância. Fidel é um estrategista.
Tudo que envolvia Fidel devia ser anotado num caderno e depois arquivado. Desde um telefonema de Gorbatchóv, uma reunião com Gabo, ou o vinho – procedência e ano – sempre que o Fidel abrisse uma garrafa.
Certa feita, Juan viu o Barbarroja – outro segurança do Jefe – chegar a passos largos no palácio acompanhado de um sindicalista brasileiro. E falou para o Fidel: – Apresento-lhe o futuro presidente do Brasil.
Lula achou útil passar por Havana antes do pleito de 89.
Fidel é um egocêntrico e gosta de ser o monopolizador das atenções. Embora crítico do ditador, Juan o trata com admiração por ser um superdotado de inteligência e, como pessoa inteligente, não presta atenção no que veste. Optando pelo uniformes militares. Várias vezes Fidel comentava que “faz muito tempo que solucionei o problema do terno e da gravata” e que só faria a barba quando o imperialismo morrer.
Um frequentador assíduo da Ilha era o Gabo, Gabriel Garcia Márquez, nunca faltava ao aniversário do el jefe.
Sobre a fortuna do tirano, não temos muito que comentar: ele é muito rico. Literalmente, vive numa ilha. Uma ilhota próxima a ilha de Cuba. Lá possui todas as mordomias e segurança. E poucos são os frequentadores dessa ilha.

Sobre amigos para sempre: não tinha essa, o caso Ochoa é emblemático. Era cúmplice junto com el jefe no que diz respeito ao tráfico de drogas. Um saiu fuzilado da história e o outro eterno comandante.
Dois capítulos me chamaram atenção e que devem ser lidos atentamente. “O caso Ochoa” e o último “A prisão e... a liberdade!”. Por que uma pessoa – vale para o autor como também para Ochoa – tão próxima e de extrema confiança foi presa e descartada dos rumos da revolução?
O livro encerra com uma pergunta pertinente e que fica sem resposta:
“Mais que sua ingratidão sem fim por aqueles que o serviram, condeno sua traição. Ele traiu a esperança de milhões de cubanos. E, até o fim de meus dias, uma pergunta rondará a minha mente; por que as revoluções sempre acabam mal? E por que seus heróis se transformam, sistematicamente, em tiranos piores que os ditadores que eles combateram?”
A narrativa merece ser lida por todos aqueles que de uma forma ou de outra tomaram uma “Cuba Libre” para celebrar Che e Fidel. Mas hoje não tomamos como tomávamos antigamente. Nem “Cuba Libre” e nem Fidel são mais os mesmos.
Uma leitura para conhecer o cotidiano de uma das pessoas mais influentes na América Latina nos últimos 50 anos.
Vai encarar? Mas não retruque Fidel, ele não gosta de ser contrariado.

ps
[Na foto Sánchez tira a caneta que Fidel recebera da jornalista, pois poderia estar envenenada]

Um comentário:

Roberto Olszewski disse...

Excelente resenha. Convida à leitura.