sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Não levante o dedo para mim



Athos Ronaldo Miralha da Cunha

Todos os candidatos postulantes ao Palácio do Planalto falaram nos seus programas em reforma política. E todos estão certos nessa intenção. É a principal das reformas.
Abro colchetes. [Já faz algum tempo que tramitam projetos nesse sentido no Congresso Nacional e todos os atuais candidatos fazem parte da nossa elite política, são detentores de mandatos e não foram capazes de encaminhar e aprovar algo semelhante. Esperamos não ser, novamente, mais uma proposta eleitoreira]. Fecho colchetes.
A nossa democracia representativa precisa ser rediscutida, precisamos de uma democracia mais igualitária. Uma democracia mais espraiada na sociedade. Vejamos o período eleitoral que é o auge da participação e onde vemos aflorar as mais diversas altercações ideológicas, religiosas e comportamentais. E algumas excrescências, diga-se.
A nossa eleição é muito desigual. Começa com o tempo de televisão e encerra com a capacidade de recolher contribuições. Na corrida presidencial analisando, apenas, o G3, podemos observar que uma candidatura arrecadou R$ 100 milhões a mais do que outra. Sem falar no latifúndio de tempo no horário gratuito. Convenhamos, é uma corrida desigual. E para modificar esse quadro requer uma profunda discussão. E é uma discussão polêmica e de difícil acordo, pois envolve interesses diretos de partidos e de poder.  Evidente que tem que existir uma diferença de tratamento entre um partido com 80 deputados e outro que tem 5, mas é possível reduzir essa diferenciação de modo que torne mais parcimoniosa e mais igualitária.
No entanto, embora o pouco espaço de mídia e modestas contribuições têm candidaturas que consegue expor seus projetos e visão de mundo e agregam muito mais no debate político do que longas imagens de um país irreal ou de achincalhamento pessoais de lada a lado. Como também têm candidaturas com o mesmo padrão de tempo de mídia e arrecadação que conseguem mostrar o que de mais atrasado e reacionário pode existir em um pensamento. E esse é o grande imbróglio de uma reforma: como tratar os ditos pequenos partidos? Porque são incomparáveis as contribuições de Luciana Genro e o arremedo de candidato Levy Fidelix, por exemplo.
Luciana Genro incorpora a candidatura que se supera com a falta de tempo e a pouca arrecadação. Aí entra o fator ideológico e temas intocáveis pelas “principais” candidaturas, ou seja, o fator surpresa dessa eleição é a Luciana Genro. Entrou na campanha disposta a colocar o dedo nas feridas e levantar as bandeiras mais polêmicas.
A candidata do PSOL trouxe para o debate a postura de uma esquerda moderna. Uma esquerda que avança para além da esquerda pré-muro de Berlim. Colocou na mesa temas como homofobia, maconha, casamento homoafetivo, taxação dos bancos e imposto sobre as grandes fortunas. Discussões que estavam tangenciando os candidatos do G3, sendo que alguns pontos sequer estavam nos programas.
Com pouco tempo e mínimas arrecadações Luciana Genro conseguiu fazer um estrago nessa campanha, imagina com um tempo maior e com financiamento público. Talvez os números do Datafolha seriam diferentes.
Em 2010 Plinio fez diferente na campanha e era um simpático candidato de esquerda, nesse 2014 coube mais uma vez a candidatura do PSOL ser esse diferencial. Não ficamos indiferentes após cada debate, com a participação de Luciana, em relação às suas propostas e seu desempenho.
Acredito que se os debates fossem em horário nobre, num amplo encontro de ideias, Luciana Genro estaria como o Inter e o Grêmio no atual campeonato brasileiro: na cola do campeão ou disputando vaga à Copa Libertadores.
“Não levante o dedo para mim” foi a frase que a candidata falou para Aécio Neves, o neto, quando ele replicava. Aécio baixou o dedo e concluiu. Essa parte do debate foi breve e sem grandes desdobramentos – não houve alteração na escala Richter –, mas foi muito significativo.
Alguém pode perguntar: esse texto é uma declaração de voto?
Respondo: é.

3 comentários:

Roque Valente disse...

Ótimo texto. Apreciei sua perspectiva e vi que ela é condizente com o que ocorreu no debate. Temos um vácuo de representação, seja por partidos que se desvirtuam, seja por regras que impedem que "a bola corra".

Athos Ronaldo Miralha da Cunha disse...

Grato pela leitura e comentário Roque.

De Letra disse...

Acompanho o voto do relator.

Parabéns pelo texto.

Abraço

Diego