quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Os diabos

Nesses tempos nebulosos que nos oprimem com uma crise, nos enlevam com democracias dos mais diversos matizes, que nos embutem sentimentos sãos e outros que nos causam deslizes, eu gostaria de falar de arte. Mas de arte eu não sei falar, apenas sei ver, e vejo com olhos de néscio.
Então, resolvi falar de literatura. Talvez, assim, eu consiga exprimir as minhas verdades. Imaginando, também, que seja a verdade de outros.
Assim, eu vejo a literatura divina, bonita, que nos aprofunda os pensamentos e nos adianta contradições numa dialética bicolor. Bipolar e transcendental. A literatura é grandiosa, vasta e infinita. Uma das maravilhas desse nosso mundo moderno, instantâneo e virtual. Mas também é a mediocridade de umas palavras cruzadas. Mas daí não é literatura.
Os deuses fazem literatura. Essa é a premissa.
Os deuses... e os diabos.
Os que escrevem a verdade. Escrevem uma certa verdade sendo deuses ou diabos. Os paradigmas da literatura: como os deuses escrevem? Certo e com a razão, talvez até escrevam em azul. Os diabos escrevem errados e com a emoção, talvez escrevam em vermelho. A literatura tem o tempero dos deuses e dos diabos. Os deuses temperam com ervas aromáticas e os diabos com pimentão. O vermelho é “caliente” é latino-americano. O azul é polar, é Antártida. O vermelho e o azul essa é a bi-polarização. Seu coração é livre para escolher. Mas como resolver essa contradição se meu coração é vermelho e a liberdade é azul?
O deus é azul e o diabo vermelho? Por que é sempre assim?
Graças à literatura nós vamos ao céu na companhia dos anjos, vamos ao inferno com os demônios. Retrucamos marmanjos que escrevem pandemônios. Vamos à praça, ao rio e ao mercado. À floresta, às profundezas dos oceanos e ao topo do mundo. A literatura nos leva aos confins do universo.
Escrevemos, todos, deuses ou diabos, e queremos esconjurar nossas opiniões, anseios quase dialéticos e idéias vãs. E fazemos o debate sem os percalços das injúrias e das agressões.
Escrevemos bem e mal e usamos a ironia. E a ironia escrita pode ser mal-interpretada e cruzar ao largo da verdade. Por falar em verdade, também mentimos na ficção e na realidade. Transformamos a realidade em ficção. Mas o que é a mentira e a realidade senão frutos de nossa imaginação? E a ficção é mais bonita que a realidade. A mentira para a mentira pode ser a verdade e a verdade a maior mentira. Seria essa a realidade?
Escrevemos um texto, convictos que são os deuses que escrevem. Mas o que é a convicção senão a maior inimiga da verdade. Já dizia Nietzsche.
Enfim somos deuses ou diabos. O que vamos escolher se são os homens que denominam o que é deus e o que é diabo.
Então, simplesmente, escrevemos. Ou, simplesmente, façamos arte.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Tema musical do Centenário do Internacional

O Internacional revolucionou os festivais quando fez as inscrições via internet. Um processo que usa a tecnologia em benefício da agilidade e do menor custo.
Muitos artistas, poetas e compositores se esmeraram para produzir uma bela canção.
No entanto, o processo de escolha deixou a desejar. Não avançou no que diz respeito a triagem das músicas. O processo eleitoral não está levando em conta a qualidade dos trabalhos. O voto via internet é viciado e facilmente fraudável. Vota-se como se fosse uma campanha eleitoral. Têm músicas que estão fazendo mais votos que muitos deputados estaduais. O critério é de quem tem mais listas na internet e mais amigos no Orkut. Ou uma maior tribo. Se em dois dias de votação tiveram músicas com mais de mil votos. Isso causa estranheza. Será que os votantes ouviram todos os temas para decidir o voto?
A votação virtual é um democratismo que não vem ao encontro da arte. Análise poética das letras. Composição melódica e interpretação não estão sendo levados em consideração. Deveriam ter escolhido um corpo de jurados que ouvissem as músicas e fizessem uma seleção sensata. E, aí sim, uma votação na internet para a escolha da mais popular.
Um evento que poderia ser um marco na história do Internacional está fadado a um encontro de “clicadores” da internet.
Em nome de uma suposta acusação pelas tendências dos movimentos musicais, pois há uma variedade de ritmos que vão da vanera ao rock, varre-se a ética para debaixo do tapete.
Acho lamentável que a diretoria do Inter esteja chancelando essa truanice que se tornou a votação do tema do centenário. Lamentável porque a análise criteriosa por pessoas que realmente entendem de arte musical foi, simplesmente, jogada na vala comum dos cliques dos computadores e na ininterrupta troca de ip’s.
Só há uma solução para salvar o evento: o Internacional tem que cancelar, imediatamente, esse processo e indicar uma comissão plural de pessoas idôneas e do meio musical que indicarão 20 canções para serem tocadas na final do dia 17 de dezembro.
Se não houver tempo, que se adie esse festival, afinal o Centenário é em abril de 2009.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A greve dos bancários

Temos ciência que a greve causa transtornos. Mas a greve é um recurso legal utilizado pelos trabalhadores quando as negociações coletivas não avançam.
Os bancários estão em greve. Um movimento pacífico e nacional, com uma adesão jamais vista antes na história desse país (sic). A proposta da Federação Nacional dos Bancos é risível diante das estratosféricas lucratividades dos bancos.
Nas negociações específicas do Banco do Brasil e da Caixa, em que o patrão é o governo Lula, e do Banrisul, em quem o patrão é o governo Yeda, as negociações estão travadas.
Em relação a política da governadora a gente entende, pois compreendemos como a social democracia brasileira trata os funcionários e as empresas públicas. O governo FHC foi o que mais vendeu patrimônio público e o que aniquilou os sindicatos. Vivíamos sob a égide das demissões. A simples participação em uma assembléia do sindicato era motivo de temor.
Lula foi forjado no sindicalismo, enfrentou os poderosos e foi líder das memoráveis greves dos metalúrgicos no ABC. O que Lula mais ensinou para nós, sindicalistas, foi fazer e conduzir uma greve. Mas nos falta competência, fomos péssimos alunos. Mas temos um atenuante em nosso desempenho, os atuais negociadores do governo Lula são profundos conhecedores da nossa metodologia. Quando Lula assumiu a presidência, uma gama enorme de sindicalistas – combativos e arraigados cutistas – transformaram-se em governo e, como num passe de mágica, passaram para o outro lado da mesa de negociações. E com uma facilidade, que nos surpreende, incorporaram o estereótipo do mais soberbo dos patrões.
Se antigos companheiros estão do outro lado da mesa, por que as negociações não ocorrem? Porque do outro lado da mesa há o encanto do poder. A arrogância da gravata. Do outro lado da mesa as pessoas ficam travestidas de patrão e vestem o mesmo traje da prepotência, da coação e da ameaça. Na Caixa sofremos ameaça de gestores que estão em férias nas paradisíacas Ilhas Gregas. E nós vamos a Restinga Seca conversar com os colegas e sequer temos tempo para tomar um banho de sol nas Tunas.
Diante de mais uma queda da bolsa de valores pelo mundo afora, a greve dos bancários continua em todo o Brasil. Enquanto o capitalismo manqueja e busca conforto no dinheiro público para continuar sua agiotagem internacional, os bancários estão em greve e continuam dispostos a negociar com os governos Lula e Yeda, desde que venham despojados da empáfia do poder.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Relíquias de um tempo remoto - conto coletivo

Parte I – Athos Ronaldo Miralha da Cunha


Abriu, lentamente, o portão de ferro e ouviu o rangido do metal oxidado. Um ruído que provocava antigas e doces lembranças. Caminhou pelo pátio em direção à porta da casa e pode ver ao fundo da residência o mesmo pé de pereira de muitos anos atrás. Foi nesse momento que seus pensamentos voaram para um passado longínquo.
Roberto jamais imaginaria estar vivendo essa situação após tantos anos de ausência. Viu nitidamente, como um filme em preto e branco, enquanto caminhava pelo jardim, seus tempos de menino e adolescência, de uma vida modesta e pacata.
Em tempos remotos seria recebido pelos alegres e festivos latidos do cachorro. Banzé era nome daquele vira-lata que foi o seu melhor amigo de infância. A avó Carlota, uma vizinha que contava estórias de assombração em noites de lua cheia com todos os irmãos ao redor de uma mesa na cozinha, também foi motivo de suas recordações. No inverno Dona Carlota servia pipoca e amendoim e no verão Q Suco de framboesa.
Os pais se foram e há muito tempo, os irmãos estão um em cada canto desse mundão de Deus. A rua está asfaltada e não é mais a mesma em que seu pai fazia as fogueiras de São João. Não era a mesma rua que Roberto jogava bolinhas de gude e futebol com a meninada.
A sua casa era de uma família humilde: na sala um jogo de sofá e poltronas e uma mesinha de centro. Uma folhagem ornamentava o canto mais iluminado do lugar onde o sol dava sua graça nas manhãs de outras primaveras. Um dos quartos era ocupado pela máquina de costura da velha mãe que eternizava o balanço dos pés para atender sua vasta freguesia. Da cozinha Roberto conseguia lembrar apenas do paneleiro de metal feito pelo próprio pai que trabalhava no depósito de uma fundição.
Viera em busca de uma relíquia da família. Um castiçal que ficara na velha casa quando seus pais tiveram que mudar de cidade. Um castiçal de prata que sua mãe adorava porque era uma relíquia herdada de sua avó e era repassada do de geração em geração. Nenhum dos irmãos tinha ficado com o castiçal e Roberto estava ali diante da porta que outrora se abria para um guri arteiro e que, hoje, era uma muralha ou uma ponte para o passado. Beto estava prestes a vislumbrar os compartimentos da residência que o viu nascer e recuperar um pouco da memória de seus pais.
Seus passos são indecisos, mas segue em direção à porta da velha morada. Com a mão inquieta aperta o botão da campaninha e ouve uma voz rouca vinda do interior.
– Já estou indo... só um momento...
Diante de Roberto, uma senhora, uma anciã que tinha o rosto e um sorriso ingênuo muito familiar. E essa visão deixou Roberto desconcentrado.


Relíquias de um tempo remoto
Parte II – Antonio Candido de Azambuja Ribeiro


– A senhora é...
– Beto, que agradável surpresa!
– Vó Carlota?!
– Sim, meu filho, entra. Está frio aí fora, guri!
– Mas, a senhora... a senhora...
Roberto não completou a frase, tomado por emoção que não conseguiu controlar. Como poderia Vó Carlota estar viva e tão bem disposta, depois de décadas? E o que estaria fazendo ali, na casa que fora deles? Ou tudo não passaria de um delírio? Está certo que a viagem o deixara em estado de anormal excitação, mas daí a "ver coisas"! E só poderia estar "vendo coisas", pois ninguém, nem a boa Vó Carlota, poderia passar incólume pelo tempo. Depois que se mudaram, há 35, 40 anos, Roberto não se recorda do recebimento de notícias da velha senhora. E se, já na época, dona Carlota era velha – o que, então, para um guri, significaria ter 40, 50 anos –, atualmente, se viva, ela teria entre noventa e cem anos. Claro que, hoje, com os avanços da Medicina, as pessoas vivem mais. Mas o aspecto dela não é de quem tenha 90 anos. A senhora, que o recebeu, tem, se tanto, 70 anos. Mas, só pode ser ela, pois, se não fosse, como saberia seu nome?
– Beto, não fique aí parado, vem cá guri, me dá um abraço! Depois, vamos tomar um café novinho, que acabei de coar. E tem pipoca, amendoim torradinho e uma novidade. Lembras daquele pinheiro que teu pai plantou no fundo do pátio? Dá pinhões, que é uma beleza, cozinhei uma panelada deles...
– Dona Carlota, a senhora...
– Pára com isso, menino, que história é essa agora de "dona Carlota"? Me chama de avó, como sempre fizeste. Aliás, Beto, como tu demoraste para vir! Há muito tempo te espero. Sei que queres o castiçal de prata da tua finada mãe. Estes anos todos, o guardei como a mais preciosa das relíquias. Sei o quanto tua mãe gostava dele. Mas te confesso que cheguei a temer que não viesses ou que chegasses tarde demais. Sinto-me cansada e a casa parece também já não suportar o peso dos anos, a cada dia surge um novo problema: são goteiras, infiltrações, canos entupidos, fios que não suportam a carga de energia, janelas empenadas, portas que se soltam dos marcos, cupins nos móveis. Um horror, meu filho, mas o castiçal está como novo, todo dia o retiro da cristaleira, acendo a vela e, depois de limpo e lustrado, o guardo novamente.
Beto, olhos já acostumados à penumbra do ambiente, ao fitar a anciã, percebeu-a mais envelhecida, como se de repente tivesse envelhecido dez anos. Enquanto Carlota se afastava, arrastando os pés em direção à cozinha, Roberto sentiu uma lufada de ar frio. O vento forte e gelado de agosto escancarou a janela da sala, fazendo balançar um postigo apodrecido e preso à janela por uma única e enferrujada dobradiça. Beto sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Quando, chamado por Carlota, entrou na cozinha, viu, sobre a mesa, o castiçal com a vela acesa, uma xícara de café fumegante e pratos, ordenadamente dispostos, com pipocas, amendoins e pinhões. Sob a luz mortiça do castiçal, Carlota, pálida e encarquilhada, parecia ter envelhecido mais dez anos.


Relíquias de um tempo remoto
Parte III – Tania Lopes


Como num filme onde o ator rola sobre si mesmo, Beto sentiu uma vertigem e foi parar no antigo quarto. O velho guarda-roupa com o espelho trincado (– Tem que trocar esse espelho que dá azar! – quase ouvia a avó dizendo.) as três camas enfileiradas, quase juntas, pois a peça não era grande, era o mobiliário que acomodavam os seus sonhos de infância. E lá estava ele guri imberbe, ossudo e desengonçado, metido embaixo da cama, enfiando os dedos numa fenda do assoalho, fazendo com eles alavanca, levanta a parte do assoalho onde fizera a muito custo um buraco para esconder suas relíquias. Vistoria para ver se ninguém andou mexendo: o canivete que cortava tudo, a coleção de selos, as revistinhas dos heróis... Tudo ali! Retira debaixo dos gibis e folheia com sofreguidão a revista que tomara "emprestado" do irmão mais velho... Precisava olhar ligeiro e repor no lugar!
A excitação era grande! Então era isso que o mano olhava e não deixava ninguém ver? Se o mano descobrisse que era ele que surrupiara lhe dava uma coça de criar bicho! Sabia que não devia mexer nas coisas dos outros, mas a curiosidade muitas vezes é maior do que a noção do perigo... Olhou com gosto, detendo-se em cada detalhe antes desconhecido e agora ali, tão explícito. Sentiu uma coisa gelada no pescoço e, ao virar-se deu com o cachorro encostando o focinho, ganindo e lhe dando lambidelas! Precisava sair logo dali antes que alguém desconfiasse pelos ganidos do cusco:
– Sai, sai, Banzé... sai... – tentou convencer o cachorro enquanto recolocava a nesga do assoalho no lugar.
Vendo que corria perigo, a contragosto, meteu a revista entre o calção e a camiseta e se esgueirou devagar. Tudo tranqüilo, se não fosse o barulho das panelas vindo da cozinha, diria que estava sozinho. Pelo ronco de seu estômago e o cheiro que exalava pela casa toda, imaginou que a comida estava por sair, mas antes disso havia o ritual do banho. – lembrou:
– O banho chato de todo o dia... – nem terminou o pensamento e ouviu o grito:
– Chamem a gurizada pro banho! Daqui a pouco a comida tá pronta!
– Então eu vou primeiro! – gritou ele que nem tinha sido notado.
Abriu a porta do banheiro, viu a torneira pingando, o buraco do ralo, o chuveiro de água fria, a cesta de roupa suja, as toalhas diligentemente enfileiradas, o sabonete ordinário meio se desmanchando no nicho de louça... Fechou o trinco da porta e pela primeira vez sentiu que precisava de um banho gelado.


Relíquias de um tempo remoto
Parte final – Orlando Fonseca


Vento frio e úmido nas orelhas e no pescoço. Ainda estava à sua frente a anciã, com os olhos arregalados, o sorriso havia desaparecido, e a sua voz rouca repetia: moço, moço, você está passando bem? Tá sentindo alguma coisa?
Sentia-se estranho, olhou para os lados, como tentando reconhecer algo, parece que havia apagado por instantes, as pernas frouxas, e um mal-estar subindo-lhe do estômago. Aceitou entrar na casa e nada do que percebia dela, agora, guardava o que acalentara em expectativa por muito tempo. A senhora havia se encaminhado à cozinha, e voltava com um copo na mão, que lhe ofereceu gentilmente.
Enquanto sorvia a água fresca, tentava pôr em ordem as idéias, especialmente, lembrar o que viera fazer ali. Sim, aquela fora a sua casa, que por fora ainda guardava todos os traços que carregara vida afora, desde a infância e adolescência. No interior da casa, nada lembrava o aconchego, a proteção que sentia no convívio com os pais e os irmãos. Embora extremamente humilde, aquele antigo cotidiano era pleno de uma alegria simples e de uma fraternidade que se perdera, como perdera o contato com o que restara da sua família. Bem sucedido, cheio de diplomas e títulos, empregado de uma grande empresa no centro do país, ainda solteiro, estava ali, como se tivesse perdido algo. Entretanto, os quadros pelas paredes de tinta envelhecida não traziam fisionomias conhecidas, sobre os móveis repousava uma inexplicável poeira – tudo estava limpo – era como se os anos forçassem a sua impressão, e não inspiravam familiaridade e apego.
O mal-estar ia se transformando em melancolia e, antes que sentisse vontade de sair correndo dali, avistou a cristaleira. Era ao menos igualzinha à que guardara um objeto – não conseguia lembrar o que era na verdade – mas uma súbita centelha de esperança fazia com que sentisse ter vindo em busca dele, e não era em vão que estava ali. Pôs-se em pé e, com meio sorriso, perguntou à velha senhora se podia se aproximar do móvel. Ela sorriu, sem se opor e afirmou: claro, pode olhar à vontade.
– Dona Carlota... – saiu-lhe espontaneamente o nome, mas voltou-se para ela, a fim de conferir - a senhora é a dona Carlota, não?
Ela sorriu, mais uma vez, e corrigiu-lhe:
– Não...
– Não??? – surpreso - Seria capaz de jurar que...
Ela então interveio, mais uma vez:
– Engraçado, você não é o primeiro a me confundir assim. Mas no fundo tem razão, porque eu sou filha dela. Minha mãe morreu já faz muitos anos.
– Ah, mas a senhora não morava com ela, aí na casa do lado?
– Não. Quando mamãe morreu, eu vim para cá. Meus irmãos já morreram, e eu aluguei a antiga casa, que estava em melhor estado, e vim morar aqui, nesta casa que pertencia à minha família, e que já estava abandonada há uns bons anos. Seus irmãos... quer dizer, vocês moravam aqui, não é mesmo?
– Sim... a senhora falou em meus irmãos? A senhora os conhece? Faz muitos anos que não vejo meus dois irmãos, e minha irmã.
Então a senhora conduziu Roberto de novo para a poltrona, pois precisava falar alguma coisa. Nos últimos dois anos, fora visitada por três pessoas, em intervalos de alguns meses, e parece que se completava aquele ciclo de visitas justamente com ele. Todos se dirigiam à cristaleira, como se dali pudessem pegar algo valioso. Não perguntara a nenhum deles o que se tratava, mas parecia ser algo muito importante.
– Eu também tive esta impressão ao entrar aqui e ver a velha cristaleira. Parecida com a que tínhamos em nossa antiga casa.
– É muito provável que seja a mesma, pois já estava aí quando resolvi vir para cá. As outras coisas tive de jogar fora, pois já estavam muito estragadas e imprestáveis. Você por acaso sabe do que se trata?
– É estranho, muito estranho... mas não consigo atinar com nada, a não ser esta impressão muito forte de que ali haveria algo que eu precisava vir aqui resgatar.
– Então eu lhe digo o seguinte... – a senhora encaminhou-se até um balcão, abriu uma gaveta de onde tirou uns papéis – Isso aqui deve servir para alguma coisa.
Na verdade, eram uma folha rasgada de uma agenda, um cartão de visitas e o pedaço de um envelope de cartas. Nos três, Roberto pôde ler os nomes de seus irmãos, e os endereços deles. A velha senhora ainda acrescentou:
– Acho que valeria a pena vocês se encontrarem para lembrarem o que procuram. A propósito, você tem um cartão? Ou deixa escrito num papel, pra que se um deles voltar...
– Claro, claro – disse, tirando do bolso a carteira, sacando um cartão.
Depois de despedir-se, dirigiu-se ao velho portão, fazendo-o girar nos antigos gonzos. Ao guardar os papéis com os endereços dos irmãos, deu-se por conta do que realmente estava procurando.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Poema eleitoral



Quando um candidato do PT
Pede o meu voto
Eu pergunto:
Você tem esse boton?

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Alpargatas coloradas

O Internacional foi um dos clubes brasileiros que mais investiu e qualificou o plantel para as competições em 2008. Preparou-se com a intenção de disputar a Taça Libertadores da América no ano do Centenário.
O Inter sagrou-se campeão gaúcho com uma histórica goleada sobre o Juventude, mas ficou fora da Copa do Brasil e o desempenho no Brasileirão está aquém do esperado.
No entanto, a opinião da crônica esportiva ainda mantém-se favorável ao Internacional. Bom time e com reais possibilidades de figurar no topo da tabela. É aqui que entra a história das alpargatas, a possibilidade do Inter ingressar no G4.
No domingo, catorze de setembro, pouco antes do jogo contra o Botafogo, eu coloquei umas alpargatas coloradas, uma folgada bombacha e preparei o amargo para curtir a doce vitória sobre o alvinegro carioca. Tudo bem, sem muita convicção. Um empate estaria de bom tamanho.
Dois a zero no placar e a cuia roncava tranqüila. De repente, gol do Botafogo. Estava no meio de um mate e pressenti a tragédia no final do jogo. Fiquei desconfortável na poltrona imaginando as mesmas cenas dos filmes de outros jogos. Nesse instante, dei-me conta que quando estava dois a zero eu calçava as alpargatas e no gol do Botafogo eu estava com os pés sobre uma banqueta e as alpargatas vermelhas jogadas sobre o tapete. Não tive dúvidas, calcei novamente as alpargatas e garanti a vitória do Inter.
Então, comecei a perceber algumas coincidências nos jogos desse campeonato brasileiro. Sempre que o Internacional perdia ou tomava um gol eu estava sem as alpargatas. Naquela falha do Renan no Gre-Nal eu estava com uma sandália havaiana azul. Pode? As partir dessa constatação passei a acreditar que as alpargatas influenciavam no resultado quando estão nos meus pés. Atualmente não tiro as alpargatas nem para assistir a propaganda eleitoral gratuita.
Essas alpargatas coloradas eu ganhei num amigo-secreto de fim de ano. Estão meio surradas, desgastadas pelo uso. Sinto que preciso adquirir umas novas para assegurar a regularidade dos jogos e garantir, definitivamente, a entrada do colorado no G4. Mas, segundo uma amiga espírita e vidente, eu não posso comprar, pois perde o encanto e a magia. Assim, eu tenho que ganhar umas novas alpargatas. Então, solicito, encarecidamente, aos amigos colorados que me enviem, com um acerta urgência, umas alpargatas novas. Novas e coloradas. A sorte do Internacional no Brasileirão depende muito delas. Aguardo o retorno dessa solicitação antes do dia 28, pois não devemos correr o risco de uma derrota no Gre-Nal do Beira-Rio. A Taça Libertadores nos espera em 2009.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Obama lá

A possibilidade de um negro assumir a presidência dos Estados Unidos torna as eleições dos gringos por demais interessante.
Barack Obama tem origem humilde, sua avó mora em um casebre humilde num recanto longínquo da África. Mas Obama estudou e se formou em Harward Law School. Obteve a distinção honorifica Magna Cum Laude e é um eminente senador.
Obama é um pop star. O estilo de sua campanha arrasta multidões. Tem o carisma e a empatia característica dos líderes. Até na Alemanha esteve em campanha. Não sei se foi um erro de estratégia, mas o fato que o candidato colocou milhares de alemães para ouvi-lo. O candidato Democrata é simpático e sorridente. Faz o estilo boa gente e boa pinta.
Seu adversário é um ex-militar do Vietnã, quase 80 anos, é um ilustre vovô conservador do Partido Republicano.
Como cá, lá também funciona o pragmatismo. Para equilibrar a chapa Democrata Obama escolheu como vice o senador Delaware Joseph Biden, um ancião branco com larga experiência em política externa. A chapa Obama-Biden... me lembra um barbudão com turbante. Mas eles devem saber o que estão fazendo.
John McCain surpreendeu com uma jovem senhora para ser sua vice. Sarah Palin uma morenaça bonita que governa o Alaska, mas com alguns percalços políticos e pessoais, que, lá, pode arranhar sua candidatura.
Obama e McCain são dois candidatos tão diferentes que se transportarmos para o meio artístico brasileiro, eu diria que John McCain tocaria viola no programa do Rolando Boldrin e Obama seria um DJ que animaria a galera como MC Barack.
Se aqui no Brasil a esperança venceu o medo lá ela é audaz. Em seu livro A audácia da Esperança Obama escreveu. "Quando se examina seu conteúdo, a verdade é que as mensagens da esquerda e as da direita são as mesmas, apenas com o sinal trocado". Esse negócio de colocar a esperança nas campanhas como mote de uma frase de efeito deve ser estudada pelos cientistas sociais. E nós sempre acreditamos nela... afinal é a última que morre.
Para nós que vivemos abaixo do Equador e bem mais abaixo em poder aquisitivo, pouco importa. Continuaremos cucarachas. Olhando-se para ambos os candidatos com olhos de Brasil exportador de laranja enxergamos McCain e Obama com o mesmo sinal.
Dizem os entendidos que o Partido Democrata é mais protecionista. Mas nutro uma simpatia pelo candidato Obama, por dois motivos triviais: Só para ver como se comporta a conservadora classe média americana com um negro na presidência e porque o Diogo Mainardi abriu o voto para John McCain.
Obama lá, de preferência com o sinal trocado.