sexta-feira, 12 de março de 2010

Saudades da revolução

Yo tengo tantos hermanos
Que no los puedo contar
Y una hermana muy hermosa
Que se llama libertad
Los Hermanos – Athaualpa Yupanqui


Aprendemos a admirar Cuba porque uma gurizada no final da década de 50 resolveu derrubar um ditador e acabar com as mazelas de um povo. Uma turma que ousou enfrentar um tirano. E todos aqueles que desejavam um mundo melhor torciam pelo novo regime liderado por Fidel, Che, Sinfuegos e tantos outros.
Tomávamos cuba libre para comemorarmos os vitoriosos de Sierra Maestra. Enquanto Cuba se tornava um país voltado para às causas sociais, pelo mundo afora surgiram algumas ditaduras sanguinárias. Na America Latina, Brasil, Uruguai, Argentina, Chile e Paraguai houve regimes de exceção que torturavam e assassinavam dissidentes. Muitos heróis guerrilheiros do Brasil deram a própria vida em nome da liberdade. Temos diversos exemplos, mas Carlos Lamarca foi grande porque “ousar, vencer” era seu lema. Carlos Marighela também tombou em nome da revolução.
Eu faço parte da geração imediatamente posterior à geração que pegou em armas. Organizou guerrilha, foi presa, torturada e se não está em alguma cova clandestina, sofreu com o cárcere – como preso de consciência – e foi banida do país. A minha turma fez a revolução nas mesas do antigo bar “Em Cena”, que ficava na esquina da avenida presidente Vargas com a rua Floriano Peixoto. E só não conseguimos porque o bar fechou.
Todos nós conhecemos algum amigo ou companheiro que foi preso político ou que ainda chora o desaparecimento de um ente querido. Afinal, por quem choram “las locas de la plaza de mayo?”
Um amigo falou que não conseguia falar mal de Cuba. Eu também não consigo. Fidel tem cara de vovô e Raul de um simpático tio. Mas a notícia de presos de consciência na querida ilha de Fidel, nos constrange. E diante da morte de um dissidente, nosso silêncio não pode ser transformado em uma luta armada às avessas. Lula fez greve de fome e nos preocupava, mas aumentava nossa admiração pelo futuro presidente. Quantas greves de fome fez o senador Paulo Paim pela causa dos aposentados? E foi o primeiro metalúrgico gaúcho assumir uma cadeira no senado.
Guillermo Fariñas, outro dissidente político filho de revolucionários, sendo que seu pai lutou com Che no Congo, está em greve de fome pela liberdade de 26 presos de consciência. Guillermo Fariñas sintetizou a atual conjuntura cubana na seguinte frase: há momentos na história dos países em que precisa haver mártires...
Onde estão os revolucionários de hoje? No Brasil é mais chique ser ex- revolucionário e trabalhar num gabinete refrigerado. E, em alguns casos, com uma gorda conta no banco.
O que é ser revolucionário numa Cuba que tem mais de uma centena de presos políticos? Cuba precisa avançar na revolução. E isso compreende uma palavrinha que nunca deve sair de moda, democracia.
Cuba tem vários avanços sociais, mas precisa se renovar politicamente e nós que somos “amigos” de Fidel não devemos contribuir com nosso silêncio. Nosso silêncio é uma afronta a todos os revolucionários que doaram a vida em nome da liberdade.
Hasta la vista, companheiro!

Linque para a música Los hermanos

3 comentários:

raul disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
raul disse...

Cara, me deste uma idéia para eu conseguir engordar... fazer greve de fome sem, obviamente, o desfecho trágico. Pelo perfil(físico) do Lula e do Paim dá certo. Também não consigo falar mal de Cuba. Abraço!

Guina Medici disse...

Athos meu velho, como vais?
Cuba é uma ditadura brutal onde não há o menor vestígio de liberdade individual. Só governos medíocres e populistas conseguem apoiar este país desgraçado que teima em matar sua população de fome (quem tiver dúvidas e estômago que leia "Viagem ao crepúsculo" de Samarone Lima, publicado no ano passado). É triste. Parte significativa da esquerda brasileira prefere não enxergar a realidade e continua se enganando. Isto é caso para análise psicanalística e não para análise política.