quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Uma festa para os jovens da Kiss


Athos Ronaldo Miralha da Cunha

Numa situação dessas, de uma tragédia que vitimou 242 jovens, a expressão da dor e da saudade pode ser feita das mais variadas formas. Não devo julgar as crenças e as descrenças que envolvem um sentimento de perda. É, praticamente, impossível nos colocarmos – nós que não tivemos familiares na tragédia – na posição de um pai ou de uma mãe que teve a vida de seu filho, prematuramente, ceifada. Nesses dois anos sempre procurei entender e compreender todas as manifestações dos familiares, por um motivo muito simples: nunca tantos jovens morreram num espaço curto de tempo numa cidade do Brasil. Algo sem precedentes na história e rogamos para que jamais se repita.
Eu sou da opinião que nenhum excesso praticado por um pai deve ser condenado porque eu não sei do que seria capaz se tivesse no lugar de algum deles. Na verdade não houve excesso de manifestações e atitudes, acho que caminhamos para um excesso de impunidade e um excesso de esquecimento. A tragédia da boate Kis não pode ser transformada, apenas, em um toldo na praça com fotos dos jovens. Para superar essa dor precisamos de algo mais e esse algo mais se resume em uma única palavra: justiça.
Na adianta querermos escamotear e o poder público – as três esferas que constam na cidade, principalmente a municipal – fazer de conta que está tudo bem. Em Santa Maria não está tudo bem. Santa Maria não foi e não será mais a mesma depois daquele 27 de janeiro.
No próximo 27 de janeiro fará dois anos daquele fatídico amanhecer. O domingo mais triste. O dia em que o Brasil e o mundo choraram por Santa Maria. E nesses dois anos ninguém foi condenado. Ninguém perdeu seu cargo. Ninguém foi demitido. Ninguém foi responsabilizado. Quantos anos, ainda, aguardaremos pela justiça?
O próximo dia 27 será um dia de reflexão. Introspecção e recolhimento. No poema “Veterano” do saudoso Tocaio Ferreira tem um verso que diz: “Repasso o que tenho feito, para ver o que mereço”. É um momento de refletirmos sobre a vida, repassarmos o que temos feito e ver o que merecemos. Nós ficamos e temos o compromisso de manter a memória viva desses 242 jovens.   
Como escrevi no começo, procuro entender e compreender todas as manifestações. Mas tem um detalhe: uma festa numa boate no dia 27 para homenagear as vítimas, fica difícil de entender. Deve ser os inexplicáveis mistérios que existe entre o céu e terra. 



4 comentários:

Cleusa Frizzo disse...

Concordo plenamente com o senhor Athos. Acho que o senhor colocou claramente o que muitas pessoas pensam e gostariam de dizer.

Unknown disse...

A tragédia da Kiss foi terrível, mas a afirmação "nunca tantos jovens morreram num espaço curto de tempo numa cidade do Brasil" é questionável. Em 1961, em Niterói, o incêndio no Gran Circus Norte-Americano, havia 3000 pessoas na plateia, faltavam vinte minutos para o espetáculo acabar, quando uma trapezista percebeu o incêndio. Em pouco mais de cinco minutos, o circo foi completamente devorado pelas chamas. 372 pessoas morreram na hora e, aos poucos, vários feridos morriam, chegando a mais de 500 o número de mortes, das quais 70% eram crianças.

Athos Ronaldo Miralha da Cunha disse...

Valeu pela postagem.
O que também é profundamente lamentável...

Glades Felix disse...

Parabéns pela coragem e lucidez, Sr. Miralha.