domingo, 9 de setembro de 2012

Sem Sangue - o degolador (*)


Athos Ronaldo Miralha da Cunha

Sem Sangue chimarreava, pensativo, ao pé do braseiro.
Lembrava de que quando gurizote peleou na Revolução Federalista de 93. Era o assistente do coronel maragato Adão Latorre. Naquela campanha foram responsáveis por mais de 300 degolas de pica-paus.
Foi num dia muito quente no lugar que ficou denominado como Potreiro das Almas lá para os lados de Bagé. O guri era conhecido pelos rebeldes por João Faz Tudo. Ele que amarrava os prisioneiros deixando pronto para o Adão Latorre. O guri foi prestativo nas degolas, zombarias e humilhações de pica-paus. Depois daquele dia passou a chamar-se João Sem Sangue e, logo em seguida, apenas, Sem Sangue. Na maioria das vezes tinha olhar parado e gestos lentos. Diante de tamanha selvageria no ato da degola Sem Sangue permanecia indiferente. Calmo e frio como se estivesse pitando um palheiro feito a capricho. Agia com frieza e com a maior naturalidade, inclusive, quando o primo Juan – do lado chimango e mais castelhano da família – implorou pela vida. Sentindo o calor do aço da adaga de Latorre no pescoço fez sua derradeira solicitação.
– João! A gente pescava junto... a gente era parceiro nas barranqueadas... João pelo amor de Deus e de nossas mãezinhas...
Latorre olhou para Sem Sangue como quem diz “e agora guri”, mas Sem Sangue não moveu um músculo da face sequer. E seus olhos fitaram, como último adeus, os olhos de súplica de Juan. Ainda segurando o corpo inerte de Juan, Latorre perguntou.
– Era teu primo Sem Sangue?
– Era – foi a resposta seca e completou. – Eu nunca fui numa pescaria e nunca barranqueei – virou as costas e saiu.
E agora passados todos esses anos, depois de tropeadas e andanças araganas, Sem Sangue lutava nas tropas de Zeca Neto na campanha de 23. Seguia os ideais de Assis Brasil. Mais uma vez um confronto sangrento entre chimangos e maragatos. Continuava ágil e frio o velho Sem Sangue de guerra.
Os gritos do passado eram um turbilhão de vozes aflitas que martelavam sua mente. Então, percebeu diante de seus olhos a imagem do primo Juan pedindo “pelo amor de Deus e as nossas mãezinhas”.
Sem Sangue sorveu mais um mate, tomou um trago de cana e ajeitou as lenhas no braseiro. Amolou a adaga num rebolo e secou num saco de farinha. Saiu do barracão a passos lentos e olhos parados.
– Onde estão os chimangos?



(*) 3º lugar no 2º Concurso de Causo Gauchesco Apparicio Silva Rillo, promovido pela Estância da Poesia Crioula.


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